Um clássico: “Memória & Sociedade: Lembrança dos Velhos”, por Ecléa Bosi

09/04/2010 às 18:09 | Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário
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Aqueles que querem estudar o envelhecimento, a memória e a importância destes na construção e história de uma cidade, não podem se furtar de ler o livro de Ecléa Bosi, um clássico neste genêro.

Para que servem os velhos? Para lembrar, lembrar muito e lembrar bem. Esta é uma conclusão simples que pode ser tirada da leitura do complexo livro Memória & sociedade: lembrança de velhos, da historiadora da USP Ecléa Bosi. Trata-se de um livro sobre memória social, ancorado na velhice – essa fase da vida inevitável que muitos jovens simplesmente ignoram.

“(…) não pretendi escrever uma obra sobre memória, nem uma obra sobre velhice. Fiquei na interseção dessas realidades: colhi memórias de velhos” escreve a autora, que dividiu o livro em dois capítulos iniciais teóricos e um último capítulo no qual se torna uma personagem narradora, tal como os oito personagens do livro.

As histórias dos personagens de Bosi mostram que a função social exercida durante a vida ocupa parte significativa da memória dos velhos, e isso não ocorre por acaso. A memória, na velhice, é uma construção de pessoas agora envelhecidas que já trabalharam. Assim, é uma narrativa de homens e mulheres que já não são mais membros ativos da sociedade, mas que já foram. Isso significa que os velhos, apesar de não serem mais propulsores da vida presente de seu grupo social, têm uma nova função social: lembrar e contar para os mais jovens a sua história, de onde eles vieram, o que fizeram e aprenderam. Na velhice, as pessoas tornam-se a memória da família, do grupo, da sociedade.

O homem jovem e ativo, em geral, não se ocupa com lembranças – não tem tempo para isso. Dos jovens, a sociedade espera produção, e muitas vezes não se dá conta da violência implícita nesse processo. Produção nas indústrias, nas minas de carvão, produção de conhecimento – muita produção. Dos velhos, não. Deles, espera-se a lembrança. Mas quando não se valoriza essa função social, como acontece mais correntemente, há um esvaziamento e uma desvalorização dessa nova etapa da vida.

Mas não é só o tempo “socialmente permitido” que os velhos têm para se dedicar às suas lembranças. Bosi, em seu livro, lembra que os velhos têm uma memória social atual mais contextualizada e definida, pois são expectadores de um quadro já finalizado e bem delineado no tempo. Aos mais jovens, ainda absorvidos nas lutas e contradições de um presente que os solicita intensamente, falta experiência para lidar com as lembranças.

A relação estreita entre memória e trabalho mostrada por Bosi em seu livro, feita pela análise das vidas de seus personagens, e a constatação de que a função social da velhice, nem sempre reconhecida, não deveria ser perdida. A autora vê e mostra os velhos com afeto e compreensão e, ao final do livro, já não separa as suas próprias memórias das memórias de seus personagens. Ao contrário de outras publicações do tipo, não coloca os velhos em uma situação passiva, pois enquanto eles lembram, eles ainda “fazem”.

O final do livro é afetuoso e valoriza o trabalho como ponto central da memória dos velhos: “A memória do trabalho é o sentido, é a justificação de toda uma biografia. Quando o Sr. Amadeu [um dos velhos que é personagem] fecha a história de sua vida, qual o conselho que dá? De tolerância para com os velhos, tolerância mesmo com aqueles que se transviaram na juventude: Eles também trabalharam”.

Por:  Juliana Schober / In: www.comciencia.br

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