“E por falar em boa velhice”: Envelhecimento Bem sucedido e Bem Estar Psicológico por Sueli Aparecida Freire.

11/04/2013 às 20:08 | Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário
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boa velhice

Desde que os meios de comunicação intensificaram a divulgação das perspectivas dos demógrafos em relação ao envelhecimento populacional no Brasil, as pessoas têm-se preocupado com questões ligadas à qualidade de vida na velhice. “Será possível ter uma velhice feliz”? O que fazer para chegar a ela? Quando uma pessoa deve começar a se preocupar com medidas preventivas em relação ao processo de envelhecimento? Existiria, hoje, uma “fonte da juventude”, criada pela ciência? Vale a pena permanecer jovem sem usufruir das etapas seguintes da vida? Em geral, o que se pretende não é deixar de se desenvolver, ficar parado numa etapa da vida como ser incompleto, inacabado, estagnado, mas manter a integridade mental e física até os últimos anos de vida.

Identificar as virtudes da velhice, descobrir a riqueza de uma vida vivida plenamente, até seu fim, passa a ser, então, tema de interesse geral.

Uma vez que grande número de pessoas espera gozar de uma longa velhice, o significado do envelhecimento bem-sucedido passa a ter maior importância, especialmente hoje, quando se sabe que velhice não implica necessariamente doença e afastamento, que o idoso tem potencial para mudança e muitas reservas inexploradas. Aumenta a consciência de que os idosos podem sentir-se felizes e realizados e de que, quanto mais forem atuantes e estiverem integrados em seu meio social, menos ônus trarão para a família e para os serviços de saúde. A partir daí, tanto os estudiosos de diversas áreas como as pessoas em geral têm-se interessado pela busca por formas de chegar a uma velhice bem-sucedida. Afinal, envelhecimento e velhice representam um processo e uma etapa de vida que merecem a atenção tanto da ciência e da tecnologia quanto da sociedade e do indivíduo.

As pesquisas sobre os mecanismos envolvidos no ‘processo de envelhecimento estão muito avançadas, e grande parte de seus fatores determinantes já são conhecidos, bem como formas de atuar sobre eles, atenuando-os ou protelando-os.

Alguns problemas ligados ao envelhecer podem ser evitados com medidas preventiva  como nutrição equilibrada, exercícios físicos, condições ambientais adequadas e disposição interna para enfrentar as dificuldades inerentes ao processo.

Outros são desconhecidos – e há os conhecidos que ainda não puderam ser controlados ou evitados, como alguns ligados à herança genética. Apesar disso, sabe-se que, ao divulgar os conhecimentos acerca dos mecanismos que causam prejuízo às capacidades funcionais, aumenta-se a oportunidade de um envelhecimento saudável e de uma velhice plena, com as satisfações e realizações dessa fase da vida.

É com base nessas ideias que muitos programas desenvolvidos com adultos de meia-idade e idosos têm sido propostos e realizados. Neles, são tratados temas importantes para a boa qualidade de vida dos idosos, como nutrição, cuidados básicos com a saúde, direitos e deveres do cidadão idoso, atividades físicas, saúde mental e participação social. Tais programas são muito procurados, afinal as pessoas estão cientes de que ainda não existem fórmulas científicas para o rejuvenescimento nem receitas mágicas para envelhecer bem. Já existe muita informação sobre o processo de envelhecimento e a velhice satisfatória do ponto de vista biopsicossocial, mas neste capítulo será abordada a questão do envelhecimento bem-sucedido no aspecto psicológico, o que é envelhecimento bem-sucedido?

A ideia de envelhecimento ideal, bem-sucedido, de uma longa velhice sem perda do vigor físico e da agilidade mental vem atrai o interesse das pessoas desde a Antiguidade. Cícero, em seu livro De Senectude, partindo da ideia de que o indivíduo tem o poder de construir uma imagem positiva da velhice e de seu envelhecimento, afirma que essa etapa da vida não é feita apenas de declínio e perdas, mas abriga muitas oportunidades de mudanças positivas e de um funcionamento produtivo. Enquanto Cícero enfatiza a força do caráter que vem com a idade, Platão associa velhice com calma e liberdade. E, na atualidade, diversos estudiosos dão ênfase à variedade de forças ligadas à longa existência, como calma, tranquilidade, liberdade e sabedoria.

Isso reflete uma corrente de pensamento na ciência que enfatiza os aspectos positivos do envelhecimento, ao invés de estudar apenas as perdas e os declínios, como habitualmente tem silo feito.

Desde seu início, a gerontologia procurou investigar as características positivas do envelhecimento humano, e essa busca foi simbolizada pelo lema da Gerontological Society of América nos anos 50: “Acrescentar vida aos anos e não apenas anos à vida”. Essa divisa permanece até os dias de hoje, especialmente nos estudos sobre qualidade de vida na velhice, bem estar psicológico do idoso ~ envelhecimento bem-sucedido ou satisfatório .

Desde então, várias ideias têm surgido. Uma delas refere-se ao envelhecimento satisfatório como dependente do equilíbrio entre limitações e potencialidades da pessoa, o que lhe permitido enfrentar as perdas inevitáveis da última fase da vida, e de sua constante interação com o meio ambiente, de forma a facilitar sua adaptação às mudanças ocorridas em si própria e no mundo que a cerca.

O envelhecimento bem-sucedido também é visto como uma competência adaptativa do indivíduo, ou seja a capacidade generalizada para responder com flexibilidade aos desafios resultantes do corpo, da mente e do ambiente. Esses desafios podem ser biológicos, mentais, auto conceituais, interpessoais ou socioeconômicos.

Segundo os estudiosos, essa competência adaptativa é multidimensional:

(a) emocional, no sentido das estratégias e habilidades do indivíduo para lidar com os fatores estressores;

(b) cognitiva, em relação à capacidade para resolução de problemas;

(c) comportamental, no sentido do desempenho e da competência social.

Como competência adaptativa, o envelhecimento envolve a preservação e a expansão das reservas para o desenvolvimento pessoal. Está relacionado à boa qualidade de toda uma vida, o que depende dos acontecimentos vivenciados pelo indivíduo desde a gestação, de sua herança genética e dos fatores socioculturais. Dessa forma, os indivíduos envelhecem de forma muito diferenciada, dependendo de como organizaram suas vidas, das circunstancias históricas e culturais em que vivem e viveram, da ocorrência de doenças durante o envelhecimento e da interação entre fatores genéticos e ambientais.

Todo esse conjunto de fatores dará condições diferenciadas para cada indivíduo lidar com as perdas e as transformações decorrentes do envelhecimento, ou seja, para adaptar-se às transformações ocorridas em si e no meio em que está inserido. Considerando tais aspectos, pode-se concluir que o envelhecimento humano é um processo individual e diferenciado em relação às variáveis mentais, comportamentais e sociais .

Além das diferenças individuais, os estudiosos têm encontrado aspectos em comum  nos processo de envelhecimento. Em geral, os idosos têm importantes reservas para o desenvolvimento, que podem ser ativadas pela aprendizagem, por exercícios ou treinamento. Em condições  médicas e ambientais favoráveis, muitos continuam a ter potencial para funções em altos níveis e para adquirir novos conhecimentos teóricos e práticos.

No entanto, essa capacidade de reserva latente tem seus limites,  determinados pela plasticidade individual, pelas diferenças individuais com relação à adaptabilidade.

Outro aspecto interessante descoberto pelos estudiosos refere-se à capacidade de compensar declínios decorrentes do envelhecimento. Por exemplo, as perdas relacionadas à memória podem ser compensadas pelo uso de técnicas de memorização. Também a perda de velocidade na tarefa de digitar documentos vede ser compensada pela maior habilidade para ler trechos maiores, diminuindo o tempo gasto para olhar o texto a ser digitado.

A qualidade também pode ser maior em virtude da experiência prática aliada a esses fatores,  que favorece a diminuição de erros. Estudos demonstram que, em geral, os idosos mantêm a visão positiva de si mesmos e a capacidade para controlar suas próprias vidas de forma eficaz, apesar das tensões e dificuldades inerentes ao envelhecimento.

Com base nas experiências de sucesso e fracasso ao longo da vida, bem como nas expectativas em relação ao futuro e a si próprios, os indivíduos são capazes de ajustar seus projetos de vida de acordo com as condições presentes. A satisfação com a vida, inclusive – um dos indicadores de envelhecimento bem-sucedido mais estudados, mantém-se elevada na velhice, especialmente quando os indivíduos estão empenhados no alcance de metas significativas de vida e na manutenção ou no restabelecimento do bem-estar psicológico.

A questão do bem-estar psicológico na velhice também tem sido bastante estudada dentro de perspectivas teóricas que investigam os aspectos positivos do envelhecimento. Um modelo teórico contendo seis dimensões do funcionamento positivo foi proposto para explicar o bem estar.

Essas dimensões são:

1) Auto-aceitação: implica uma atitude positiva do indivíduo em relação a si próprio e a seu passado; implica reconhecer e aceitar diversos aspectos de si mesmo, incluindo características boas e más.

2) Relações positivas com os outros: envolve ter uma relação de qualidade com os outros, ou seja, uma relação calorosa, satisfatória e verdadeira; preocupar-se com o bem-estar alheio; ser capaz de relações empáticas, afetuosas.

3) Autonomia: significa ser autodeterminado e independente; ter habilidade para resistir às pressões sociais para pensar e agir de determinada maneira; avaliar-se com base em seus próprios padrões.

4) Domínio sobre o ambiente: ter senso de domínio e competência para manejar o ambiente; aproveitar as oportunidades que surgem à sua volta; ser hábil para escolher ou criar contextos apropriados às suas necessidades e valores.

5) Propósito na vida: implica ter metas na vida e um sentido de direção; o indivíduo percebe que há sentido em sua vida presente e passada; possui crenças que dão propósito à vida; acredita que a vida t em um propósito e é significativa,

6) Crescimento pessoal: o indivíduo tem um senso de crescimento contínuo e de desenvolvimento como pessoa’ está aberto a novas experiências; tem um senso de realização de seu potencial, e suas mudanças refletem autoconhecimento e eficácia.

Como se pode perceber, os estudos realizados até o momento têm contribuído para a compreensão do funcionamento psicológico na velhice, para o uso de enfoques multidimensionais com vistas ao envelhecimento bem-sucedido e para desfazer alguns mitos em relação à velhice, como o de que essa etapa da vida seria um tempo de infelicidade e insatisfação. Atualmente, os estudos continuam na busca das relações entre aspectos psicológicos – como funcionamento cognitivo e satisfação – e fatores como saúde, status socioeconômico e atividade social.

 Conclusão

Como foi destacado no texto, é possível ter um envelhecimento bem-sucedido. Envelhecer não é um fator de risco, pois há evidências de que as pessoas mais velhas tornam-se mais eficazes no uso de processos adaptativos, tendem a apresentar boa capacidade para compreender a relação entre as condições que definem o que é possível, ou não, e aplicar tal conhecimento em seu desenvolvimento pessoal e em sua adaptação.

Como a velhice satisfatória tem relação com o sistema de valores que vigora rum determinado período histórico para uma dada unidade sociocultural, há necessidade de investigações sobre as condições que permitem uma boa qualidade de vida, de forma a compreender o envelhecimento, suas potencialidades e seus limites. Essa compreensão permitirá gerar alternativas de intervenção visando ao bem-estar dos indivíduos que envelhecem.

Entende-se que envelhecer satisfatoriamente depende do equilíbrio entre as limitações e as potencialidades do indivíduo e, nas pesquisas atuais, busca-se:

a) determinar que os mecanismos compensatórios e adaptativos que permitam envelhecer com qualidade e bem-estar, do ponto de vista biopsicossocial;

b) aumentar o conhecimento sobre as reservas inexploradas dos idosos e seu potencial para mudança, de maneira a identificar condutas que levem a um envelhecimento bem sucedido.

Com base nos estudos realizados sobre envelhecimento bem sucedido, podem-se destacar algumas estratégias para chegar a uma velhice satisfatória:

1) Engajar-se em um estilo de vida saudável para reduzir ocorrência de condições que levem a um envelhecimento patológico.

2) Fortalecer as capacidades de reserva do indivíduo por meio de atividades educacionais, motivacionais e relativas à saúde, além de fortalecer a formação e a manutenção de laços  sócio-afetivos.

3) Em Virtude da heterogeneidade no envelhecimento, é importante evitar soluções simples e encorajar a flexibilidade individual e social.

4) Considerar estratégias que facilitem o ajustamento à realidade objetiva, sem perda da individualidade.

5) Cultivar novos hábitos (mentais e físicos),

6) Aperfeiçoar as habilidades sociais.

7) Engajar-se em atividades produtivas.

8) Desenvolver uma filosofia que dê significado para a vida.

Partindo dessas ideias, percebe-se que não é apenas na maturidade ou na velhice que deve haver a preocupação com o envelhecimento com qualidade, e sim durante todas as etapas da vida, quer pelo cuidado e pela atenção recebidos daqueles que cuidam do indivíduo (por exemplo os pais, na infância), quer por parte, do próprio indivíduo,  (por exemplo, ao desenvolver hábitos de vida saudáveis, ao estimular na sua comunidade o cuidado com o meio ambiente, ou ao cumprir e exigir o cumprimento de leis que garantam os direitos dos idosos.)

Há, portanto, uma parte da garantia do envelhecimento bem-sucedido que cabe à sociedade, uma parte que cabe à herança histórica e biológica do indivíduo em parte que cabe a ele próprio (como examinar em si mesmo habilidades, talentos, potenciais que podem ser desenvolvidos e buscar formas de atualizá-los).

Faz-se necessária, também, uma revisão do que se fez na vida, o que se desejou mas não foi possível realizar antes. Pode ser que, nos projetos abandonados, esteja a oportunidade de pôr em prática novas habilidades. As informações dadas por amigos e familiares também ajudam o indivíduo a saber como o produto de seu esforço é avaliado pelos outros. Ouvir a opinião de pessoas queridas sobre suas habilidades pode ajudar a conhecê-las melhor.

Em algumas ocasiões, pode ser necessária a ajuda de profissionais para auxiliar na definição dos projetos para o futuro e na detecção de habilidades e atividades a desenvolver. Pode-se recorrer a outras fontes de ajuda e informação (como, por exemplo, os cursos de universidades abertas à terceira idade ou cursos técnicos promovidos por escolas especializadas) para complementar os conhecimentos e ampliar os horizontes de escolha.

Como dizem os estudiosos, a velhice satisfatória não é apenas uma qualidade da pessoa, mas o resultado da interação do indivíduo em transformação vivendo numa sociedade também em transformação.

Sendo assim, é importante ter em mente que a vida na velhice pode ser satisfatória, com qualidade e bem-estar, especialmente quando há disposição para enfrentar os desafios da vida, lutar pelos direitos dos cidadãos e pôr em prática projetos viáveis dentro das condições pessoais e do meio ambiente em que se vive.

Como afirma a psicólogo Maria Helena Novaes, “envelhecer não é seguir um caminho já traçado mas construí-lo permanentemente”.

Texto extraído de Neri, Anita L. – E por falar em boa velhice, Papirus, 2000.

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