Trabalhando, criando família e disseminando valores no Campo de Pesquisas de Pindamonhangaba de 1958 a 1998, por Manoel do Vale e sua esposa Amazil Ferreira do Vale.

06/10/2011 às 14:43 | Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário
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Como o objetivo deste blog é relatar as histórias de vida/trabalho dos servidores e ainda resgatar os serviços realizados pelas unidades do DAEE, estivemos na residência de um simpático casal que foi um dos primeiros moradores do Campo de Pesquisas de Pindamonhangaba. Eles viveram e trabalharam nesta unidade, subordinada à Bacia do Paraíba e Litoral Norte (Taubaté) durante 40 anos, de 1958 a 1998. 

O casal – Manoel do Vale atualmente com 83 anos e Amazil Ferreira do Vale com 80 anos -, ele nos contou que tinha 22 anos e ela, 19 anos quando se casaram, em São José do Barreiro, cidade próxima a Bananal. Devido à construção da Via Dutra, que afetou o desenvolvimento da cidade e causou desemprego, um parente morador de Pinda, os convidou para ir para cidade onde as oportunidades eram maiores. Vieram tentar a sorte, segundo Sr. Manoel. Trabalhou como motorista, pedreiro, em um bar, em maquinas de arroz, onde aparecesse trabalho, afinal tinha quatro bocas para alimentar: os filhos José Landy, João Luiz, Joel Lúcio e Jorge Lane. 

Trabalhando na “máquina de arroz”, algo comum na cidade, e a esposa no Centro de Saúde, um médico amigo indicou o DAEE que estaria necessitando de um vigia, para o Campo de Pesquisas, que estava começando. 

Ele foi fazer uma entrevista com o Eng. Roberto Leite e com o Diretor Geraldo Guimarães. Na época, o Campo de Pesquisas tinha inúmeras maquinas de arroz, e produzia 6000 sacas de arroz por ano, abastecendo todos os refeitórios do DAEE a as colônias da ADAEE também. 

Foi admitido em 09/8/58, como vigia noturno, e sua esposa foi comissionada da Saúde para prestar serviços no DAEE.  O salário era quase igual ao que ele ganhava na máquina de arroz, mas ficou mesmo de olho na casa que prometeram a ele, com 03 quartos, dentro do Campo, onde poderia residir com a família, afinal pagava aluguel. Ficou todo entusiasmado. A casa só seria entregue em janeiro de 1959. 

Ele mesmo riu dizendo que entrou na casa, com 04 filhos e quando saiu tinha 12. Nós rimos que a casa lhe fez muito bem. 

A casa, segundo ele, foi um presente de Deus, com ela vieram grandes bênçãos, mas também muito trabalho, pois havia também uma pousada no Campo de Pesquisas que recebia hóspedes, cabendo a ele e a esposa atendê-los, com hospedagem, alimentação, café da manhã, limpeza da casa, roupa de cama, enfim, tudo que uma área de hotelaria pode oferecer. Ele também continuava com seus afazeres do DAEE, pois fazia um pouco de tudo: motorista, garçom, vigia, lavador de carro, auxiliar de cozinha, etc. 

Esta pousada atendia a hóspedes que vinham conhecer o Campo de Pesquisas que tinha por objetivo realizar pesquisas com sementes para o Governo do Estado, nas quais eram utilizadas a irrigação e a drenagem, e onde os engenheiros do DAEE, como Dr. Geraldo Guimarães era um grande especialista, tendo efetuado cursos até no Japão, entendendo tudo sobre o assunto. O Campo e os profissionais de lá, eram procurados por empresas e indústrias, universidades, dentre as quais se lembra da ESALQ e Botucatu, Empresa Francesa Polclan, profissionais de outros países para ter orientação sobre o assunto. 

O Campo era um projeto do Governo realizado através do DAEE, pois as pesquisas com sementes eram utilizadas pelas grandes empresas da área de alimentos como Cargill entre outras e, Universidades, que as utilizavam para melhorar a produção e qualidade dos alimentos. 

Comenta ainda sobre outro técnico do DAEE com grande experiência em plantas: Sr. Carlos Ribeiro de Miranda (Pai do Engenheiro do DAEE Hamilton Lazaro de Miranda que trabalhou e se aposentou na barragem de Taiaçupeba). Este profissional, apesar de não ter cursado faculdade, era técnico e entendia tudo de plantas. Até o Diretor respeitava acima de tudo a opinião dele. Em qualquer questão em que houvesse dúvida, ele era quem resolvia; porém só que havia um detalhe, ele não tirava flor ou planta antes da hora certa de podar. Segundo Sr. Manoel “não dava flor nem pra defunto, não adiantava pedir”. Não tá na hora de podar, não é não. Nem para político, nem pra ninguém e acabou. Grande profissional este Sr. Miranda. 

Nestes grupos que frequentavam a Pousada, também nomeada como “alojamento”, com o intuito de conhecer o Campo de Pesquisas, chegaram a servir almoço para mais de 300 pessoas, onde dona Amazil cozinhava sozinha pra todo este povo. “É a casa era de graça, mas veio muito trabalho junto”. Dona Amazil, apesar da sobrecarga de trabalho no alojamento, ainda cuidava do ambulatório médico, pois afinal era comissionada da Secretaria da Saúde. 

A utilização de casas pertencentes ao Estado, nesta época, era muito comum, assim como em outras regionais e, na época, da construção das barragens, pois o Estado proporcionava a estes profissionais ficar nestes locais facilitando o trabalho durante a obra e depois considerando que são serviços essenciais. No caso das barragens, por exemplo, há sempre alguém de prontidão para fechamento de comportas e outros serviços, no caso de muita chuva e no caso de algumas sedes como Registro, por exemplo, naquela época deveria ser devido à questão das enchentes, para facilitar o atendimento pelos profissionais do DAEE. 

Este alojamento no Campo de Pesquisas era frequentado também pelos servidores do DAEE, que iam passar o fim de semana lá. Eles ainda se lembram de alguns servidores e seus filhos com os quais se relacionavam e que fizeram boas amizades, brincando, andando de carro com os pais, jogando bola, subindo em árvores, etc. Havia finais de semana em que contavam mais de 30 crianças lá, e no local podiam brincar no lago, tirolesa, campo de futebol, parque infantil, muita área verde. Não há como não ter boas recordações. 

Lembra-se também de que o local era frequentado pela Alta Administração e que nesta época cada Superintendente tinha seu perfil. Nos finais dos anos 60 e inicio dos anos 70, um dos Superintendentes, tinha o costume de ao chegar, já vir passando o dedo sobre os móveis, “ai deles” se tivesse um pozinho nos móveis, a bronca era feia. 

Deste trabalho no alojamento, senhor Manoel guarda ainda alguns cadernos como “livro caixa”, em que eram feitos os registros entregues aos superiores com todas as anotações tanto dos mobiliários: colheres, copos, pratos, guardanapos, tigelas, enfim todo tipo de coisa que tinha no alojamento que ao ser quebrado tinha que ser avisado e dado baixa, assim como o livro que continha as despesas com alimentação: tantos quilos de carne, ovos, peixe, feijão, óleo, etc. Nada passava despercebido pelos superiores. Era terminar as tarefas do dia e ir direto pro caderninho pra não esquecer nada. 

Além deste caderninho, ele guarda vários outros, com os visitantes do Campo de Pesquisas. Nós pegamos um deles do período de 19/3/63 até 12/3/69 nos quais achamos alguns nomes de profissionais do DAEE que reconhecemos: Dr. Amendola, Claudio Hipólito, Renato Della Togna, Lino Guedes, Euclydes Morelli, Milton Spencer Veras Jr., Benoit Victoretti, Oswaldo Yasbeck, e Carlos Roberto Sabiá que coincidentemente nos acompanhava nesta entrevista e que esteve no Campo de Pesquisa em 1968 juntamente com Dr. Renato Della Togna. Ele achou engraçado esta coincidência. Vide fotos abaixo. 

Durante nossa conversa, duas das filhas do casal chegaram e participaram da nossa entrevista. Elas reforçaram todo respeito pelos pais, os valores que estes passaram durante a infância e a luta diária pra criá-los e que passaram momentos muito bons de suas vidas lá no Campo de Pesquisas. Mas que sabiam também que quando os pais completassem 70 anos e se aposentassem deveriam deixar o local, deixando a casa pra outra pessoa. Já haviam usufruído o bastante, agora era seguir em frente. Tinham esta consciência. 

Comentaram ainda duas histórias interessantes. Uma quando a mãe grávida cozinhava e a cozinha pegou fogo. A mãe pediu proteção da criança ao santo de devoção dela, que era São Benedito, prometendo colocar o nome de Benedito, se a criança fosse menino ou Benedita se fosse menina. Como havia uma tradição na família dos filhos homens terem os nomes começados com JL e as mulheres com ML, a promessa da mãe iria se tornar um problema, não fosse o fato do nome escolhido anteriormente ser Maria Luiza, que foi mantido pela sugestão do pai e aconselhamento do Monsenhor da cidade, alegando que Maria já era grande homenagem a Nossa Senhora – Mãe de Jesus. As filhas comentaram que foi melhor a mãe ter se convencido, senão estaria fora do costume e seria motivo de risada dos irmãos, que apesar de unidos são muito alegres e dispostos a rir um da cara do outro. 

Outra diz respeito à sobrecarga de trabalho dos pais e a orientação quanto à escola dada aos filhos. Eles tinham que estudar e “muuuito”. Não era necessário ser cobrado. Um dia chegando de uma reunião de pais, onde os seus foram os únicos que nunca iam, ela perguntou ao pai: Você não vai à minha reunião. Ele responde:“Eu não, fazer o que lá. Não tá tudo certo, tem que estar tudo certo, não há o que fazer lá”. Era isto, cabia a eles fazer a parte deles, e aos pais a deles. Criar 13 filhos sem fazer muito esforço, as regras (e os valores) eram muito claras. 

Diz ainda que a vivência desta família no Campo de Pesquisa, fez com que todos, pais e filhos fizessem com que tivessem uma forte ligação com a terra, natureza, plantas, detestam que podem ou cortem árvores, plantas só em último caso. Os pais até hoje tem inúmeras plantas no quintal além de uma horta no fundo do quintal. 

Foram anos difíceis, mas regados a muita harmonia, união, aprendizado, orientação para o bem e um ótimo exemplo de vida e trabalho dado pelos pais a quem os filhos admiram e amam muito. 

Nós que entrevistamos o casal e conhecemos a família, passamos a admirar também. 

Os servidores e os filhos são gratos ao DAEE pela oportunidade que tiveram de vivenciar bons momentos e sua infância naquele Campo de Pesquisas em Pindamonhangaba, são eles os filhos: José Landy, João Luiz, Marta Letícia, Joel Lúcio, Jorge Lane, Jairo Lelis, Jaime Lauro, Mara Lúcia, Maria Luiza, Meire Liane, Marly Léa, Maura Lídia e Maria Eufrázia (filha do coração). 

João Luiz e Jorge Lane são servidores do DAEE, de Taubaté e Registro, respectivamente.

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