Quem Roubou a minha Água! por: Lupércio Z. Antônio

01/07/2011 às 17:37 | Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

Aqueles que têm mais de quarenta anos podem fazer este exercício. Voltem no tempo. Recriem a seguinte cena. Tarde de domingo, bicicletas encostadas em árvores e vários amigos se divertindo nas águas de um rio. Qualquer rio. Se tivesse uma pequena queda d’água, melhor. Os sortudos que podem fechar os olhos e desenhar este retrato porque viveram esta e outras tantas cenas iguais em suas vidas, devem se lembrar de um fato hoje quase inimaginável aos nossos filhos: a água daqueles rios ou córregos ou ribeirões era limpa, ou melhor, ela existia e era limpa, quase transparente. Verdadeiras piscinas sem cloro. Viviam desta natureza não tão distante, a fauna e a flora. O ambiente era a soma da intenção dos seus atores. Crianças e jovens, peixes e mata ciliar, conviviam em prol da vida. Bem, voltemos ao mundo de hoje. A população de muitas regiões praticamente dobrou. E este fato, aliado ao desenvolvimento necessário, desencadeou um processo de degradação criminoso em nossos velhos rios. A falta de políticas públicas de preservação transformou nossas águas em depositário final daquilo que eliminamos, seja organicamente, seja pelos excessos da vida em sociedade. Lixo se mistura com esgoto que se dilui entre dejetos industriais que se entrelaçam com restos de agrotóxicos que são detectados por entre terra de estradas mal cuidadas. Todos se encontrando onde? Naquelas águas de nossos rios que nos trazem tantas lembranças. Com uma diferença gritante: estas águas, fundamentalmente pelo aumento constante e ininterrupto das populações, é a água que nos abastece, que nos dá o desenvolvimento e que serve para a nossa existência. Hoje o que se vê é só degradação destacada pela mídia que aponta a necessidade de vida onde esta se esvai. O retrato de nossos rios e lagos, outrora palcos de muito divertimento, atualmente são retratados pelo descaso conceitual que hoje permeia o imaginário das pessoas e das administrações públicas. Matamos de maneira lenta, direta e indiretamente as fontes de nossa vida. Assassinamos sem olhar para trás, o líquido mágico que a natureza nos concedeu. Claro, existem gritos e protestos de muitos. Correntes de pessoas alertam para este fato, bradam por ações de recuperação, apontam soluções e esperam um mínimo de atitude por parte daqueles que contaminam e degradam. A mídia pontua e expõe os fatos e pede com clareza a reversão dos problemas. Mas é pouco. Muito pouco. O enredo que vemos neste filme está longe de acusar uma alteração de script. Rios nascem e tem suas maiores extensões na zona rural, distante dos olhos da maioria dos humanos. Distante das metas e objetivos da grande maioria das administrações municipais. E nesta história, aos cinqüentões, outra surpresa: vá àquela nascente que você brincava, onde bebia da água com as mãos em concha. Duvido que a encontre no lugar. Se não morreu pelo pisoteado de animais ou plantações irresponsáveis, provavelmente ela “andou”. Sim, porque a grande maioria das nascentes vem morrendo aos poucos. Sua morte é caracterizada pelos passos que ela dá em direção ao rio principal. Entre o assoreamento e a degradação, é como se ela resolvesse se acolher no colo daquele que a originou. Mas devemos ser otimistas. Ambientalmente otimistas. Devemos acreditar no ser humano e na sua capacidade de perceber os erros e se corrigir. Seja pela vontade de ver seus filhos nadando em límpidos rios e córregos, seja pela absoluta necessidade de sobrevivência. Mas devemos ser também realistas. Nossa vontade de ver preservado nossos rios para o futuro inevitável está diretamente ligada à implementação de políticas públicas que invoquem a preservação das nascentes e a recuperação de nossas águas. Está na união de pessoas em associações ou grupos de preservação. Que unidos podem fazer a diferença e assim construir a verdadeira sustentabilidade para a vida humana. E neste contexto, quando confrontamos a degradação visível e a necessidade de desenvolvimento que não acontece sem a água, é que se destacam os Comitês de Bacia. O papel destes colegiados é hoje no cenário hídrico nacional o grande diferencial para a sustentabilidade. Milhares de pessoas discutindo ações compartilhadas para um desenvolvimento necessário, porém sustentável. Uma luz forte no fim do túnel do tempo. Túnel que esperamos encontrar cheio de água. Para beber, brincar e criar desenvolvimento.

Lupercio Ziroldo Antônio – Diretor Regional do DAEE – Bacia do Baixo Tietê

Coordenador Geral do Fórum Nacional de Comitês de Bacias Hidrográficas

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