Notas históricas sobre a Rede Hidrológica do Estado de São Paulo – Parte I, por Sergio Cirne de Toledo.

13/05/2011 às 17:06 | Publicado em artigos técnicos de servidores | 1 Comentário
Tags:

Eng Sergio Cirne de Toledo

 

 Apresentação por Ricardo Borsari 

 O registro da atividade humana é a forma de preservação da memória, que permite à sociedade a avaliação histórica de cada tempo e de como aperfeiçoar continuamente a realização dessas atividades.

A área técnica de hidrologia, que literalmente dedica à vida profissional ao registro e analise das informações hidrológicas, é a origem tecnológica de toda a cadeia de atividades dos usos e de aproveitamento hidráulico das águas, pouca atenção dá ao registro das formas como essas atividades foram realizadas ao longo desses anos todos.

Embora reconhecida à importância dessa atividade bastante complexa, do ponto de vista técnico, pela sua natureza de atividade meio para hidráulica, para a gestão de recursos hídricos e para o monitoramento ambiental, a sua pouca visibilidade levou a uma sucessão de altos e baixos ao longo dos anos, conforme os diferentes graus de prioridade a ela atribuída.

Internamente no CTH/DAEE, muitas e muitas vezes tivemos a chance, ao longo dos anos, de ouvir os relatos recortados do Eng. Sérgio Roberto Cirne de Toledo, Técnico da Divisão de Hidrologia do Centro Tecnológico de Hidráulica desde 1976, sobre esses e aqueles acontecimentos, como uma colcha de retalhos que monta o histórico da atividade de hidrologia no Estado de São Paulo e foi, por essa razão, na qualidade de Diretor na Divisão de Hidrologia, que solicitei a ele dedicasse algumas horas da sua atividade profissional à pesquisa e ao registro desses relatos, pois, mais do que qualquer outro, a sua vivência nessa atividade, e a abrangência dos seus conhecimentos em muitas outras áreas, permitem uma percepção.

O relato a seguir certamente será útil, algum dia, para uma avaliação sensata do sentido e dos aspectos, que permitem um afetivo reconhecimento da importância da ciência hidrológica para a atividade humana.

O texto abaixo foi escrito por Sérgio Roberto Cirne de Toledo – Engenheiro da divisão técnica do Centro de Hidráulica (DAEE) em Março de 2002, sendo subdividido nos seguintes capitulos: Apresentação, O periodo do Instituto Geográfico e Geológico, A Criação do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE); A Operação da Rede Hidrológica pelo Centro Técnológico de Hidráulica. Optamos por publicar a matéria em partes (capítulos), para que a mesma não fique muito extensa.

 Notas históricas sobre a rede hidrológica do estado de São Paulo

 As origens

 Nas décadas finais do século XIX, com a expansão e a prosperidade da cultura cafeeira, já atingindo as lavouras de café o Vale do Paraíba e as regiões de Campinas e Ribeirão Preto, a então Província de São Paulo, transformada na mais rica do Império, sentia grande necessidade de conhecer melhor suas características físicas, climatológicas e fitogeográficas, para estabelecer sólidas bases para a expansão segura da cafeicultura e do povoamento do interior, em grande parte desabitada.

Assim sendo, o então Presidente da Província de São Paulo, Conselheiro João Alfredo Correia de Oliveira, sancionando a lei provincial n° 9, de 27 de março de 1886, criaram à famosa e benemérita Comissão Geográfica e Geológica da Província de São Paulo, cuja chefia foi entregue ao geólogo norte-americano, Orville A Derby. Entre as secções da referida comissão havia a de Botânica e Meteorologia, dirigido pelo botânico sueco, Prof. Alberto Loefgren.

Deve-se observar que o objetivo primordial da referida secção era estudar as características da cobertura vegetal nativa da então província, com a finalidade de individualizar as regiões naturalmente mais adequadas ao desenvolvimento da cafeicultura.

Para que se tenha idéia da magnitude das tarefas confiadas à comissão, basta lembrar que, até 1905, a maior parte do território do estado era muito pouco conhecida. Com relação à caracterização do clima do estado, praticamente tudo estava para ser feito.

Até então, haviam sido feitas medições meteorológicas regulares apenas na capital e, mesmo assim, por curtos períodos de tempo.

As primeiras de que se tem notícia foram feitas do período de 1788 a 1789 pelo astrônomo português, o Abade Bento Sanches D Horta, na cidade de São Paulo. Foram publicadas nos opúsculos “Observações Astronômicas e meteorológicas feitas na cidade de São Paulo, América Meridional” e “Diário Plysico-Meteorológico de Outubro, Novembro e Dezembro de 1788 da Cidade de São Paulo”.

Posteriormente, foram feitas medições regulares de temperatura pelo Brigadeiro Machado de Oliveira, pelo Frei Germano d’Annecy, capuchinho francês e professor de física no Seminário Episcopal de São Paulo e pelo inglês Henry Joiner.

Todas estas medições não tiveram continuidade e abrangeram períodos de tempo curtos.

A primeira estação meteorologia a funcionar, regular e sistematicamente, em São Paulo, foi instalada no ano de 1886. Era operada pelo próprio Prof. Alberto Loefgren, em sua residência à Rua da Consolação nº38.

Neste local funcionava, também, o Escritório Meteorológico.

Já em maio de 1887, a estação meteorológica da Comissão passou a contribuir para o Serviço Geral do Império, instituído pelo Imperial Observatório Astronômico do Rio de Janeiro.

A primeira publicação oficial sobre meteorologia, o Boletim nº 3, publicado em1889, continham os dados medidos nos anos de 1887 e de 1888.

Em 1892, o Prof. Loefgren entregou a direção do escritório Meteorológico nas mãos do seu auxiliar, F.J. C, Shneider.

Entre este ano e o de 1894 foram instaladas várias estações no interior do estado, compondo uma rede considerável de estações meteorológicas.

A Lei estadual nº 678, de 13 de setembro de 1899, reorganizou o Serviço Meteorológico, dentro da Secção de Botânica, da Comissão Geográfica e Geológica.

Aliás, o Decreto Estadual n° 513, de 31 de Dezembro de 1897, fez a primeira referência oficial ao Serviço Meteorológico, referindo-se às três secções da Comissão: geográfica, botânica e meteorológica.

Em janeiro de 1902 o cargo de Diretor do Serviço passou a ser ocupado pelo Eng° José Nunes Belfort de Mattos, que permaneceu no cargo até seu falecimento, aos 28 de julho de 1926.

 Em março de 1902 foi publicada, no Boletim Meteorológico do ano de 1901, a primeira carta pluviométrica do estado, organizada por F.J.C. Schneider.

Neste mesmo ano a capital dispunha de três estações meteorológicas:

  • Observatório Central, situado na Praça da Republica;
  • Estação Meteorológica do Horto Florestal;
  • Observatório da Avenida Paulista.

Em 1904 iniciaram-se as primeiras previsões de tempo e distribuições dos avisos meteorológicos as diversas instituições interessadas.

Pelo Decreto Estadual nº 1459, de 10 de Abril de 1907, o Serviço Meteorológico desligou-se da Comissão, sendo anexada a Diretoria de Agricultura, com o nome de secção Meteorológica. Continuava sendo seu diretor o já mencionado Eng° J N Belfort de Mattos.

O artigo 36 do mencionado Decreto estabelecia as atribuições da Secção Meteorológica:

  1. O estudo da climatologia do estado;
  2. A meteorologia agrícola e o estudo das condições agro lógicas do Estado;
  3. Os postos e estações meteorológicas do Estado;
  4. A previsão do tempo,
  5. O colecionamento de dados Meteorológicos e a organização de mapas e diagramas do tempo, que deverão ser dados à publicidade diariamente e, em boletins, mensal ou trimestralmente.

Como se pode depreender da simples leitura de tão amplo elenco de atribuições, grande era a envergadura dos trabalhadores confiados à mencionada secção.

Em 1907 foi à segunda série de publicações do Boletim Meteorológico, em continuação aos da Comissão.

Com a reorganização da Secretaria da Agricultura, estabelecida pelo Decreto Estadual n° 1992-A, de 31 de Janeiro de 1911, a Secção Meteorológica da Diretoria de Agricultura tornou-se autônoma, com a denominação de Serviço Meteorológico, ainda sob o comando já citado J.N. Belfort de Mattos.

A 30 de Abril de 1912 foi inaugurado o novo edifício do Observatório de São Paulo, abrigando todos os instrumentos necessários às observações meteorológicas bem como a sede do mencionado Serviço Meteorológicas.

Da rede de estações operadas nesta época, continuam em atividade, até nossos dias, as estações pluviométricas da Luz (E3-36) e d Horto Florestal (E3-71). Com o falecimento de Belfort de Mattos, em Julho de 1926, o cargo de Diretor do Serviço passou a ser ocupado, interinamente, pelo Eng° Eliezer dos Santos Saraiva, até a escolha do Dr. Alípio Leme de Oliveira, que assumiu o cargo, em caráter efetivo, em 22 de junho de 1927.

A Lei Estadual n° 2261, de 31 de Dezembro de 1927, reorganizou o Serviço Meteorológico, criando a Diretoria do Serviço Meteorológico e Astronômico do Estado de São Paulo, subordinada a Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio, sob a direção do já citado Dr. Alípio Leme de Oliveira e tendo por sede o Observatório Astronômico e Meteorológico de São Paulo, localizado a Av. Paulista n°69.

Dentre as atribuições da Diretoria deve-se salientar a seguinte: “verificar, corrigir, discutir e coordenar, para publicação, os dados meteorológicos de todas as estações meteorológicos do Estado”.

A Rede operada nesta época já abrangia cerca de 25 estações meteorológicas e cerca de 200 estações pluviométricas.

No ano de 1930, pelo Decreto Estadual n° 4788, de 4 de Dezembro, foi a Diretoria anexada a Escola Politécnica de São Paulo, com a denominação de Instituto Astronômico e Geofísico, conservando as mesmas atribuições e finalidades, sob a direção, ainda, do Dr. Leme de Oliveira.

Deve-se observar, ainda, que nesta época o governo federal já cogitava encampar o Serviço Meteorológico do Estado de São Paulo.

Em 1931 ocorreu nova reorganização, com a promulgação do Decreto Estadual n°5320, de 30 de Dezembro.

Foi criado o Instituto Astronômico e Geográfico, resultante da reunião da Diretoria do Serviço Meteorológico e Astronômico (incorporada, até então, a Escola Politécnica) com o Serviço Geográfico e Geológico, que se achava incorporado a Diretoria de Serviços Públicos e da Carta Geral do Estado, conforme decreto n°5161 de 12 de Agosto do mesmo ano.

O Instituto Astronômico e Geográfico passou a ser subordinado à Secretaria da Viação e Obras Públicas, tendo a antiga Diretoria do Serviço Meteorológico e Astronômico se transformando na Secção de Astronomia e Geofísica do Instituto.

Esta compreendia:

  • Um observatório Astronômico e Geofísico na Capital do Estado;
  • Um observatório Magnético em lugar conveniente no interior;
  • Uma rede de estações meteorológicas equipadas segundo as prescrições internacionais.

O prédio que abrigava, nesta época, o Observatório Astronômico e Geofísico da Capital estava localizado, como já disse, na Av. Paulista.

O local, muito próximo à região central da cidade, tinha se tornado inadequado para as observações, prejudicadas pelas luzes e pelos bondes que transitavam pela avenida.

Assim sendo, decidiu-se construir um novo prédio, em local afastado da região central.

Em 24 de Fevereiro de 1932 foi colocada a pedra fundamental do novo prédio, no Parque do Estado, na Água Funda.

Em 22 de Novembro deste mesmo ano, foi inaugurada a Estação Meteorológica do então Instituto Astronômica e Geográfico, no Parque do Estado, onde se encontra até hoje.

As medições Meteorológicas regulares começaram em 1° de Janeiro de 1933, prosseguindo simultaneamente com as medições no local antigo, cuja serie se encerrou em 31 de Março de 1936.

Pelo Decreto Estadual n° 6008, que regulamentou os Estatutos da Universidade de São Paulo, o referido Instituto passou a ser considerado Instituto Complementar da Universidade, subordinado a Secretaria da Agricultura.

Finalmente, em 5 de Junho de 1935, o Instituto Astronômico e Geográfico foi extinto, pelo Decreto n° 7309.

Em seu lugar, a Lei n° 7328 criou o Departamento Geográfico e Geológico e a Lei n° 7329, ambas de 5 de Julho de 1935, o Instituto Astronômico e Geofísico, ambos subordinados a Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio.

A parte referente à meteorologia, do extinto Instituto Astronômico e Geográfico, passou para a Secção de Hidrografia e climatologia do novo Departamento Geográfico e Geológico, que passou a se encarregar da rede de estações meteorológicas de estado.

A estação meteorológica do Instituto Astronômico e Geográfico, do Parque do Estado, porem, passou para o também novel Instituto Astronômico e Geofísico.

Assim, em 1935, dois órgãos estaduais distintos se encarregavam de executar as atividades, no campo da Climatologia e da Meteorologia, em tão boa hora iniciados pela Comissão.

Anúncios

1 Comentário »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

  1. CTH e Hidrologia; Engº Borsari, Engº Sérgio; demais colegas dessa importante divisão: ORGULHO para todos nós do DAEE!!!
    Matéria para ser referência e ponto de partida na concepção de outros trabalhos.
    Nossos agradecimentos e o registro de nossa estima e admiração!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: