O Inimigo Invisível – A qualidade de nossas águas, por: Lupércio Ziroldo Antonio

25/04/2011 às 17:55 | Publicado em artigos técnicos de servidores | 1 Comentário

Qualidade de vida. Quantas vezes você já ouviu estes termos? Sobram as vezes que seja numa palestra sobre trânsito ou dentro de um debate sobre drogas, você ouve alguém falar: “Precisamos de ações que possibilitem mais qualidade de vida para as pessoas”. Parece bordão. Como se a intenção fosse com as repetições, você convencer na cabeça do ser humano que tudo de bom que possa ser planejado ou executado no ambiente em que ele vive tenha como resultado final a melhoria de sua qualidade de vida. 

Não discutiremos intenções, pois se acredita que quem planeja uma interferência em nosso habitat, seja ela através da construção de um empreendimento por uma empresa, ou seja, na implementação de uma política pública por um governo, tem sempre a intenção de fazer garantir ao ser humano um melhor bem estar. A interrogação é mais embaixo. O objetivo é cumprido? 

Senão vejamos. Qualidade é um atributo diretamente ligado ä confiança. Se dissermos que um produto é de qualidade estamos dizendo que confiamos neste produto. Por ser intimamente relacionado com confiabilidade fica claro que ao dizermos que alguma coisa é de qualidade estamos provocando nas pessoas a aceitabilidade a este produto. Em resumo, se relacionarmos um projeto, um produto, um serviço ou um programa de governo ao termo qualidade estamos desejando que as pessoas confiem e aceitem tal como ele é proposto. Voltamos à pergunta: O objetivo é cumprido?  

Ao associar o termo “de vida” à palavra “qualidade”, a questão atinge outra esfera. Espera-se, quase com certeza, que as pessoas confiem e aceitem, mas mais ainda que se tranqüilizem quantos aos resultados esperados, pois ele trará “mais qualidade de vida”. Aí mora o problema maior e a pergunta se faz pela terceira vez, acrescida de outra: O Objetivo é cumprido? Quem confere isto? 

Mudando diametralmente de rumo. Você, cidadão comum que vive neste mundão de Deus, sabe com clareza o que lhe traria melhor qualidade de vida? Sem pensar em dinheiro que dizem por aí não carrega consigo a felicidade, mas pensando racionalmente, o que nos traria “melhor qualidade de vida”? 

Neste mérito, ouviríamos respostas de todos os tipos, todas objetivas e que se somadas realmente trazem o bem estar e uma melhor vivência em nosso ambiente. A garantia de boa qualidade para nossas vidas derivam de bom ensino, bons hospitais, segurança urbana e nas estradas, possibilidade de férias anuais, e por aí vai. 

Para este tipo de resposta, com certeza temos como aferir esta projetada melhora em nossas vidas. Explico: nossos filhos se mostram mais atentos e aprendendo corretamente o que lhes é ensinado? Então temos uma boa política educacional e, por conseguinte uma melhora substancial na nossa qualidade de vida, pois teremos filhos preparados para o futuro. Outro exemplo. O índice de criminalidade é baixíssimo em nossa cidade. Boa política pública de segurança, que resulta em mais tranqüilidade que assim aponta para menos stress e conseqüentemente mais qualidade de vida. 

Os exemplos citados são intencionalmente relacionados às políticas públicas e o motivo, apesar de subjetivo, é claro. Melhor qualidade para nossas vidas está diretamente relacionada ao nosso espaço, ao nosso território. Eu vivo melhor se o lugar que vivo me propicia isto. 

Esta frase não é minha: “Políticas públicas que não trazem benefícios diretos ou indiretos ao cidadão comum habitante de uma cidade ou região são uma farsa”. E o que é então esta tal de política pública? Em que elas podem interferir em nossa vida cotidiana? Numa resposta simples e objetiva podemos dizer que nossa vida dentro de uma cidade é balizada fundamentalmente pelas políticas públicas implementadas pelo poder público, seja ele municipal, estadual ou federal. Para entendermos melhor. Nossos filhos precisam de uma boa escola para se educar, política pública de educação. O tráfego começa a apontar congestionamentos no centro da cidade, política pública de trânsito. Detectou-se o aparecimento de favelas em determinados pontos periféricos na cidade, política pública de habitação. Carência de árvores na cidade ou coleta irregular de lixo domiciliar, política pública de meio ambiente. Bem planejadas e executadas, estas políticas nos trazem, sim, mais qualidade de vida. 

Mas então o que tem a ver com qualidade de vida o título “Inimigo invisível” e ainda mais num evento que trata de educação e água? 

Pela simples razão de ousar querer chamar atenção para a necessidade de nos preocuparmos com algo extremamente importante em nossa “qualidade de vida” e que, por estar longe da possibilidade de aferimos resultados imediatos, se desenha no cenário de nossa existência como um “Inimigo invisível”: a qualidade da água que nós bebemos

Pesquisa ocorrida nos Estados Unidos da América há três anos, realizada em 2.200 habitantes daquele país, abrangendo todas as classes sociais, todas as faixas etárias e todas as regiões de seu território, “descobriram” no sangue das pessoas pesquisadas, mais de 150 elementos químicos. Alguns inclusive, raros. Como estes elementos chegaram ao sangue das pessoas? A resposta mais óbvia, pela amplitude da pesquisa, foi que o acesso teve origem hídrica, ou seja, o veiculo ou vetor de entrada era a água. Porque o resultado acusado não se deu em pontos isolados, nem em regiões pobres, mas de forma homogeneizada entre os pesquisados. 

Mas onde? Como? De que forma? 

A grande maioria de nós gosta de praia. Se possível, vamos todos os anos e adoramos entrar no mar. Em algum momento nos perguntamos sobre a qualidade da água do mar? Ou então, trazendo mais para perto de nosso cotidiano. Ao abrirmos uma garrafa de água mineral adquirida no supermercado ou restaurante, por algum instante nos preocupamos com a origem daquela água? Como ela foi produzida? A empresa é idônea? Claro que não e simplesmente porque “confiamos” que as pessoas e empresas que produzem algo utilizando a água, o façam dentro de todos os parâmetros técnicos e de saúde pública. No caso do mar, simplesmente não pensamos nada. É melhor não pensar e mergulhar.

 Claro que a intenção deste artigo não é ser catastrofista. Mas simplesmente provocar a reflexão de todos neste momento em que se realiza o VIII Diálogo Ambiental em recursos hídricos, para o tema “qualidade” relacionado com nossos recursos hídricos.

 Muito se tem discutido a questão da quantidade na área de recursos hídricos, ou seja, focamos muito á água seja para o ser humano ou para o desenvolvimento na parte que toca à disponibilidade. Precisamos também focar na parte da qualidade. Qualidade da água de nossos rios e córregos. Qualidade das águas dos nossos aqüíferos.

 Voltamos então a falar de políticas públicas e enredar os pontos apontados. Ponto fundamental para nossa “qualidade de vida” está intimamente relacionado a termos eficientes “políticas públicas de gestão das águas”. E isto não se constrói sem educação.

 A educação tem fundamental papel na formação das pessoas. Assim, as pessoas precisam urgentemente ser educadas e ensinadas a realizar elas, uma boa gestão com as águas e o ambiente que a natureza nos deu. Não educação ambiental pontual. Aquela de camiseta, boné e panfletagem. Mas educação ambiental continuada que provoque revolução cultural e reverta deste o mais simples dos gestos, como jogar lixo no chão, até o mais complexo que é participar e compartilhar de projetos e soluções para o verdadeiro cuidar das águas. Políticas Públicas verdadeiras são iniciadas pelo ser humano.

 Este é o objetivo. Provocar o ser humano na percepção do momento e na indução de seu movimento organizado para que verdadeiras políticas públicas sejam implementadas em nosso ambiente, sejam na nossa quadra, no nosso município ou em nosso país.

Extraído de: Revista Diálogo  – Ano 6 – Julho de 2010.

 Só assim venceremos o inimigo invisível. Só assim poderemos dizer que temos realmente “qualidade de vida”, ou melhor ainda, que temos “qualidade em nossas águas”.

Lupercio Ziroldo Antonio é engenheiro do DAEE e Diretor da BBT – Bacia do Baixo Tietê além de Coordenador Geral do Fórum Nacional de Comitês de Bacias Hidrográficas

comitesdobrasil@ig.com.br

 

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  1. Meu nome é Emanoel Henrique de Araujo Silva, sou de uma cidade do interior do Maranhão chamada Pindare Mirim e que dá nome ao Rio de mesmo nome, que corta várias cidades na região e inclusive minha cidade, chamado Rio Pindaré. Sou preocupadíssimo com a questão da poluição e do desmatamento desordenado que flagelam e devastam nosso rio, porque vejo que a cada ano a situação piora drasticamente. Fiz uma matéria que postei no Blog: http://www.valedopindare.blogspot.com, com o título S.O.S Rio Pindaré, chamando atenção para o problema da poluição e do desmatamento do Rio Pindaré. Lá postei fotos da devastação.
    Mas fiquei muito feliz e vi uma luz no túnel que me deixou muito otimista, quando tomei conhecimento do “Encontro Maranhense para Governança das Águas” que acontece entre os dias 24 e 28 de outubro em São Luis. É preciso debater insistentemente os rios Maranhenses porque senão será tarde demais.
    O que precisamos fazer na prática é evitar que as populações ribeirinhas e circunvizinhas que habitam próximas as áreas destes rios diminuam o potencial de devastação nas margens dos rios e assim deixem de poluir e desmatar os rios.
    Eu que conheço muito bem a situação do Rio Pindaré de perto e não vejo mobilização em defesa dele por parte das entidades interessadas e do poder público, fico às vezes imaginando que é quase irreversível a situação e sem nenhuma alternativa de solução. Fico pensando que é quase impossível planejarmos ações de combate a degradação e mobilizarmos pessoas interessadas em trabalhar em campanhas educativas que evitem a morte de um manancial de águas tão importante, como é o Rio Pindaré. Precisaria que o governo do estado visse a questão como prioritária e necessária para evitar agora o que seria impossível resolver futuramente.
    Como pessoa preocupadíssima com a questão espero contar com você, Lupercio Ziroldo Antonio, que é Coordenador Geral do Fórum Nacional de Comitês de Bacias Hidrográficas e Coordenador do Encontro Maranhense para Governança das Águas que está acontecendo em São Luis. Precisamos de sua ajuda para que o Rio Pindare volte a sorrir.


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