O domador de rios, barragens, obras fluviais – por Kokei Uehara

16/12/2010 às 15:03 | Publicado em DAEE - Histórico | Deixe um comentário
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No dia 7/12/2010, tivemos o imenso prazer de conversar com um professor renomado da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo: Professor Kokei Uhehara. Neste dia em parceria com os amigos da Associação dos Aposentados do DAEE, promovia uma palestra com um médico amigo seu, com um tema interessante: como funciona nosso cérebro e as doenças psicossomáticas. Isto já demonstra seu interesse por inúmeros assuntos, sua atualização e vontade de compartilhar conhecimentos.

Este oriental de 83 anos, é viúvo, tem três filhas formadas, é Engenheiro Civil especialista em Barragens e Obras Fluviais, Professor Emérito da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP) e Doutor Honoris Causa pela Osaka University. Ele é uma simpatia de pessoa, e representa muito bem o jeito saudável de viver, plenamente ativo, independentemente da idade. Em atividade profissional, ainda leciona na Poli/USP quando solicitado pelos alunos, ou mesmo em ocasiões excepcionais. 

Na oportunidade, ele literalmente nos esclareceu que, a Politécnica com 119 anos é a segunda escola mais antiga da USP (a Faculdade de Direito conta com 183 anos) e que se sente orgulhoso em ser Professor Emérito, pois, nesses 119 anos, somente 25 Professores receberam esse Título. Perguntamos a ele sobre o que é necessário para conquistar essa qualificação e ele explicou que essa denominação é concedida àqueles que são professores há longa data, titulares de cadeiras, e que tenham destaque em trabalhos acadêmicos, além da exigência de terem lecionado a alunos que se sobressaíram no País. Ao questionarmos sobre as identidades desses alunos brilhantes, ele citou dois Deputados Federais, o Vice Prefeito de Campinas e o atual Prefeito de São Paulo – Dr. Gilberto Kassab, quanto a este último explicou que o mesmo teve grande destaque juntamente com seus seis irmãos que também cursaram a Escola Politécnica. 

Dr. Uhehara foi Professor da maioria dos Engenheiros do DAEE que estudaram na Politécnica; alguns deles já estão aposentados, outros, ainda ativos na  Autarquia. 

Da sua história pessoal, menciona que em 1952, quando ainda cursava o último ano de engenharia, começou a atuar no Laboratório de Hidráulica do DAEE, junto à equipe coordenada pelo Dr. Carlito Flávio Pimenta, e que, retornando da França, onde havia estudado, trazia os conceitos sobre modelos reduzidos – essa nova forma de trabalhar com modelos haviam sido aprimoradas pelo Laboratório Nacional de Chateau.  

Ressalta que Dr. Carlito foi um grande homem, muito importante para a área de hidráulica e ao DAEE, um excelente profissional que merece ser sempre lembrado; faleceu ainda este ano, conclui.  

Estudou na Escola Politécnica entre os anos de 1949 e 1953, depois passou a ser assistente-aluno, trabalhando nos primeiros modelos reduzidos para estudo de barragens construídos no país, técnica que foi trazida para o Brasil, por Saturnino de Brito. Foi orientado do professor Lucas Nogueira Garcez, que o incentivou a progredir na carreira docente. 

Em 1953, conta Dr. Kokei Uhehara que, no primeiro momento, atuou junto ao Laboratório de Hidráulica situado à Av. Tiradentes, mas que a saída do Laboratório desse endereço cedeu espaço à FATEC – Faculdade de Tecnologia, que ele, com Dr. Carlito e outros ajudaram a fundar.   

Formado em 1954, iniciou no DAEE atuando como PO – Pessoal de Obra (denominação da época dada aos servidores que exerciam serviços temporários), trabalhava como pesquisador no Laboratório de Serviço do Vale do Ribeira. Na ocasião, Dr. Carlito recebia a verba do DAEE e a dividia com os membros da equipe. Dr. Uhehara se recorda que o primeiro modelo reduzido construído no Brasil foi o Modelo Reduzido da Barragem do Limoeiro, na região de Ribeirão Preto/São José do Rio Preto; a equipe, coordenada pelo Professor Carlito Flávio Pimenta, também contava com técnicos vindos da França. 

Depois vieram outras obras. Desenvolveu cálculos para o projeto de diversas represas no Brasil, entre as quais: Barra Bonita, Bariri, Ibitinga, Promissão, Três Irmãos, Jupiá, Ilha Solteira e Itaipu. 

Fez o curso internacional de Hidrologia na Universidade Agraria de La Molina, em Lima, Peru, em 1964, mesmo ano em que se tornou livre docente na EPUSP. 

Quando questionado sobre como eram essas instalações do Laboratório de Hidráulica, já instalado na USP na época, ele menciona que os modelos eram construídos ao ar livre, pois não havia estrutura física (galpão, estrutura de alvenaria, etc.) para essa atividade; inclusive, explica, tinham que parar com os estudos quando ventava, pois isto causava ondas nos modelos, o que prejudicava o trabalho; para os cálculos, contavam com “maquininhas” que faziam “plim-plim” (devem ser aquelas calculadoras antigas com bobinas); a maioria dos cálculos era feitos com “régua de cálculo”.  Neste momento, Sr. Uhehara se lembra que participou da Comissão Interestadual da Bacia do Paraná e Uruguai – CIBPU, formada por profissionais dos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina, e Uruguai; a essa Comissão cabia desenvolver estudos e utilizar os recursos para o desenvolvimento energético dessas regiões. Nesse grupo, havia Dr. Paulo de Menezes Mendes da Rocha, engenheiro que desenvolveu e foi o responsável pelo estudo e viabilização de Itaipu; Dr. Paulo foi engenheiro visionário, pois concebeu todo o projeto, insiste Dr. Uhehara e menciona que se orgulha muito em ter feito parte daquela equipe que realizou estudos voltados a Itaipu.

Cita que muitas réguas de cálculo foram utilizadas para a Itaipu, e deixa escapar certo riso ao se lembrar quando o Prefeito da época – Dr. Prestes Maia – o convidou a fazer parte da equipe, através do Professor Lucas Nogueira Garcez, do qual era assistente na época, e relata como foi esse diálogo:

– Você não tem aí, na sua equipe, um engenheiro jovenzinho oriental?

– Tenho o Kokei.

– “É este mesmo, eu o quero na equipe CIBPU.”. 

Ainda recém-formado, também ajudou a construir o Modelo Reduzido da Barragem Edgard de Souza, que se inicia em Osasco. 

Senhor Kokei Uhehara é um dos que tem como cidade natal o Município de Olímpia, cidade do interior do Estado de São Paulo, onde cresceu junto com os irmãos, apesar de ter nascido na Japão e vindo ao Brasil juntamente com o tio e uma irmã, já com a idade de 09 anos.  Ele nos conta que, após a sua aposentadoria do DAEE, iniciou algumas consultorias, além das aulas da Poli, mas que ao perceber que em sua cidade de coração, havia muitas inundações projetou e auxiliou, voluntariamente, a construção de uma barragem de contenção; isto na década de 60.  Para tanto, dedicou inúmeros finais de semana, saindo de São Paulo de ônibus com destino àquele local, onde acompanhava a obra que havia projetado; isto somente com o propósito de ajudar o Município onde cresceu, e esse trabalho durou muitos anos. No entanto, as trocas de Prefeitos acabaram por deixá-lo um tanto quanto chateado, pois isto atrapalhou na efetivação dos trabalhos. Enfim, a obra finalmente foi concluída e fluíram bons resultados, passando a controlar as inundações, menciona Dr. Uhehara.  

Após 40 anos, o Prefeito da época lhe concedeu o título de Cidadão Olipiense e ainda denominou a barragem como sendo “Barragem de Contenção de Cheia Professor Kokei Uhehara”. 

Dr. Uhehara faz questão de colocar tudo isto não com o propósito de se engrandecer, mas explica ter sido desta forma orientado pela família: antes de ser um profissional (engenheiro), você tem que ser um Homem/Cidadão.  Lembra assim, orgulhosamente, de sua família, todos trabalhadores rurais de Olímpia, que lhe sustentavam para a sua conclusão do ensino superior em São Paulo. Já ao final do curso, buscando diminuir os encargos da família, havia conseguido um estágio e enviou uma carta aos familiares falando sobre isto, mas a resposta que obteve foi que se a escola onde estava matriculado (USP) lhe dava tempo de trabalhar, e não só de se dedicar ao estudo, como seria o correto, melhor seria se retornasse para roça, pois a escola não era boa. Naquela época, conta, era muito comum estudar no período letivo e nas férias retornar a Olímpia para “puxar enxada”, auxiliando a família. Morou muito tempo em pensões, e teve que estudar muito, tanto na escola como na faculdade. Já na faculdade os pais ainda lhe diziam “até hoje você só tirou dez, mas agora isto não é o mais importante; o importante é que você, na sua formação, cultive outros conhecimentos e culturas; quando puder, busque aprender também arte, piano, cultura, história, filosofia, tudo isto para ir além do homem engenheiro”. Com certeza, todos esses ensinamentos, deram muito certo, pois no ano passado, aos 82 anos, Professor Kokei Uhehara foi o Presidente do Centenário da Emigração Japonesa; grande evento, fartamente divulgado na mídia, o que o fez muito feliz por ter contribuído para tal. 

Enfim, foi uma dádiva, uma lição de vida conversar com Professor Kokei: oriental sábio, humilde, cheio de energia e disposição; uma lição de vida para todos nós, pois o que ele prega ele executa. Viúvo muito cedo, pois perdeu a esposa aos 42 anos, disse que até o final do ano passado ia todos os domingos ao cemitério para lhe levar uma flor, pois não a esqueceu; só não pôde ir neste ano em razão de ter sofrido um acidente com um ônibus que lhe impossibilitou de fazer esse percurso. 

Mais uma vez, uma lição para nós: de vida e de amor. 

É sempre muito bom conversar com pessoas ao mesmo tempo tão ilustre e simples, como é o professor Kokei. 

Em tempo, buscando na internet informações sobre nosso ilustre servidor encontramos as informações abaixo que corroboram aquilo que já mencionamos: 

Reconhecimento:

Uehara é um dos fundadores, tanto da FATEC como da FAT (Fundação de Apoio à Tecnologia) dessa faculdade. Recebeu os títulos de professor emérito tanto da EPUSP quanto da FATEC. É presidente de honra da FAT e presidente da Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa. Também foi fundador, junto com outros moradores da Associação de Moradores do Butantã, em 1966. É doutor Honoris Causa pela Osaka City University do Japão e Assessor de Apoio a Visitantes da Comissão de Cooperação Internacional da USP. 

Está aposentado das funções docentes, motivo pelo qual não ministra mais aulas à graduação, entretanto continua professor de pós-graduação do Departamento de Engenharia Hidráulica e de Engenharia Sanitária da Escola Politécnica da USP. 

O Professor Kokei Uehara recebeu, por homenagem de seus alunos, uma placa de bronze comemorativa do seu importante trabalho para a engenharia, que dá nome a um espelho de água situado no interior do edifício da Engenharia Civil na Escola Politécnica, e que marcou sua passagem para a aposentadoria. 

A aposentadoria, no entanto, não representa o arrefecimento de seu entusiasmo. Embora lamente não poder estar junto dos alunos do curso de graduação, pois a legislação, absurdamente, o proíbe. Está aposentado das funções docentes, motivo pelo qual não ministra mais aulas à graduação, entretanto continua professor de pós-graduação do Departamento de Engenharia Hidráulica e de Engenharia Sanitária da Escola Politécnica da USP. 

Biografia e Homenagens

Sua biografia e obra estão retratadas em dois livros: 

Kokei Uehara – Domador de Rios, de Aldo Pereira, publicado pela Editora Expressão e Cultura.

Kokei Uehara – Reflexões sobre a Engenharia e a Educação – Para uma Tecnologia Voltada para o Bem-Estar Social, organizado por Shozo Motoyama e publicado pela Aliança Cultural Brasil-Japão e CHC-SP – Centro Interunidade de História da Ciência.

 

 

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