Um especialista em Hidrologia – Entrevista com Sergio Cirne de Toledo – Engenheiro do Centro Tecnológico de Hidráulica – CTH

17/05/2010 às 22:25 | Publicado em Sem categoria | 1 Comentário
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Sergio R. Cirne de Toledo

  

Dr. Sergio Roberto Cirne de  Toledo, Engenheiro formado pela Escola Politécnica da USP, admitido em 1970, é um daqueles profissionais super especialista e renomado na sua área de atuação e mais, se orgulha de ser o primeiro engenheiro atuando há mais de 40 anos  no Centro Tecnológico de Hidráulica/CTH, na Cidade Universitária.  

Engenheiro, formado pela Escola Politécnica, Especialista em Hidrologia pela Universidade de Nápoles(Itália),  Professor Universitário por mais de 30 anos, tendo lecionado no Mackenzie (1974-1997) e FESP (1977-2007)  é notoriamente um professor sempre: metódico; fala pausada, sem atropelos, didático, descreve sempre numa ordem seqüencial, e cronológica, sempre com exemplos e contextualizando o que diz, enfim uma pessoa com alma de professor e,  dos bons.          

Durante nosso contato, lembrou a princípio do pessoal da época da sua admissão, como por exemplo,  Dr. Giorgio Brighetti (que foi Diretor do CTH e já falecido) também formado na Escola Politécnica, uma turma antes dele, ou seja, em 1965. Dr. Briguetti sempre foi uma figura destacada e querida entre os servidores do CTH.  

Começando nossa conversa, comenta que antes da sua admissão em 1968, o DAEE foi reestruturado pelo Prof. Dr. Benoit de Almeida Victoretti, surgindo então a  Coordenadoria de Recursos  Hídricos, ao qual eram subordinadas as Seções: Comissão Permanente de Águas/CPA e o Instituto Paulista das Águas – IPA, este que se transformaria posteriormente no  CTH, sediado desde então na USP.  

A CPA responsável pela operação de toda rede hidrológica era presidida pelo Professor Carlito Flávio Pimenta. O Dr. Reinaldo de Paula Junior, outro engenheiro era o responsável pela operação da rede e trabalho de campo, sendo Sergio Cirne seu funcionário, portanto sua atuação profissional e acadêmica é toda alicerçada no trabalho com a rede hidrológica.  

Durante nossa conversa, Dr. Sergio Cirne demonstrou ter uma “memória de elefante”, se pode-se dizer assim, pois é  um profundo conhecedor da história não só de todos os assuntos pertinentes a questão dos recursos hídricos, como também da história do Brasil. A entrevista foi uma verdadeira aula.     

Comentou que os dados das chuvas começaram a ser colhidos na época do Império, em 1886, sob a coordenação do antigo IGG – Instituto Geográfico e Geológico. O Conselheiro João Alfredo Correa de Oliveira na época do Império, já mandava colher estes dados importantes para o cultivo e desenvolvimento da cultura do café no Brasil.  Ainda segundo ele a mídia informa terem sido colhidos os primeiros dados de chuva no Brasil no ano de 1943, o que não é correto e sim 1886, já no tempo no Império estas atividades já existiam. Grande visionário este conselheiro João Alfredo Correa de Oliveira, queria com estes dados saber em que regiões do estado de São Paulo eram as mais propícias para o cultivo do café. Segundo ele ainda, as primeiras estações meteorológicas do Brasil, foram compradas em 1875 por Dom Pedro II.  

Como se vê a preocupação com as águas e chuvas já eram preocupações naquela época, tanto é que havia empenho das autoridades em estudá-las.     

Durante nossa conversa percebemos que muitos dos assuntos retratados através da memória individual dos servidores estarem sempre interligadas ou popularmente “se cruzando”, pois as informações individuais reiteram o coletivo, considerando as conversas que tivemos com outros servidores: Sr. Grapeggia, Dr. Salomão, Dirceu D’Alckmin Telles entre outros que retratam a mesma época.   

Menciona outra curiosidade, como o fato de que em 1905 ter ocorrido a primeira expedição para explorar o interior do Estado de S.Paulo, num dos mapas resultados deste trabalho, constava que a região de Bauru era um “território selvagem e desconhecido”.  

 Já na CPA – Comissão Permanente de Águas, a única seção que ficava na Cidade Universitária era a de operação das redes, devido ao fato deles disporem de muitos veículos para o trabalho em campo, barcos, etc., o restante fica na Rua Riachuelo.  

A equipe que ficava no CTH e que atuava no campo basicamente era grande e cada engenheiro dispunha para seu trabalho de uma caminhonete. Ainda no ano que foi admitido, em agosto de 1970,  percorreu em 15 dias: 5.000 kilometros. “Parecia  bem animado com o que viria a ser sua futura carreira”.  

Seu trabalho neste ano consistia nas viagens de campo para instalação de novos postos pluviométricos, reparação, medição de vazão, instrução aos observadores, etc. Depois disto em 1970, foi transferido para área onde se fazia a análise dos dados, coincide o mesmo período de desativação da CPA e a inauguração do CTH. A CPA se tornaria a Seção de Hidrologia subordinada a Diretoria do CTH.  

Esta Diretoria (Hidrologia) ficou no CTH/USP até 1989, depois com a inauguração de um espaço próprio na Vila dos Remédios em Osasco, alojou-se neste local até 1998, quando retornou ao CTH/USP.  

Quando o prédio da Vila dos Remédios foi construído esperava-se a expansão dos serviços da área de hidrologia o que acabou não ocorrendo, porém o retorno ao CTH/USP do ponto de vista administrativo foi melhor.  

Perguntado se foi interessante ter atuado no campo e somente depois ter ido para área de pesquisas e analise de dados, afirma que sim, pois pode conhecer melhor o trabalho de campo, os observadores, suas condições de trabalho, a percepção e mentalidade deles sobre o trabalho etc.   

Atuou também no primeiro sistema de alerta a inundações em Salesópolis, contando inclusive o motivo de sua instalação.  

Em 29/01/1976 caiu uma grande chuva em São Paulo, principalmente na bacia do Guarapiranga. Choveu 230 mm só neste dia, quando a média mensal para janeiro é de 240 mm. Portanto choveu num dia o que era previsto para o mês todo e a barragem quase extravasou.  

O DAEE teve uma atuação muito importante, convocando servidores de todas as categorias para fazer diques com sacos de areia. Se isto não fosse feito a barragem poderia extravasar causando grandes prejuízos à cidade. Isto mostrou a importância e a necessidade de um sistema de alerta a inundações. Assim sendo ele foi designado pelo CTH para recolher os dados de toda  rede hidrológica e montar diariamente os boletins de chuvas. O trabalho consistia em aguardar os dados que vinha por telefone de três postos: do Estaleiro (Mogi), do Rio Tamanduateí, e de outro posto ligada a antiga Light. De posse dos dados, fazia os boletins que acabava concluindo por volta das 18:00 horas e que,  posteriormente deveriam ser  levados ao Gabinete do Superintendente na Rua Riachuelo. Em uma dessas ocasiões, lembra rindo, que chegou à sede do DAEE em torno das  21:00 horas. Entrou no prédio vazio que só contava com o trabalho dos guardas, faxineiros, etc. Entrou, pegou elevador, andou pelos corredores, foi até a sala da Superintendência (vazia), deixou o documento sobre a mesa do Superintendente e ninguém sequer  perguntou quem ele era ou o que fazia ali.  Lógico que esta forma de trabalhar no Sistema de Alerta a Inundações, foi substituída gradualmente pela atual, que fica na Barragem de Ponte Nova, com equipamentos, técnicos, dados via internet, etc. (temos matéria sobre o SAISP neste blog). 

 Nossa entrevista com Sergio Cirne foi longa, acho que em torno de 2 a 3 horas, onde ele nos explicou pacientemente e didaticamente todo a sua vasta experiência e a trajetória de sua carreira, passando pelos temas: hidráulica, hidrologia, sistema de alerta a inundação, FEHIDRO, Comitês de Bacia, a importância do trabalho realizado pelo DAEE, enfim nos deixou mais informados sobre o papel do DAEE, do Centro Tecnológico de Hidráulica e obviamente deste servidor, um verdadeiro “expert” nos assuntos sob sua responsabilidade. 

 Nos confidenciou ao final que pretende sim se aposentar, mas deixar de trabalhar não, com certeza.  Ainda bem, assim o DAEE,  a população, o Governo e nós cidadãos,  não perdemos toda esta vasta experiência acumulada ao longo do tempo de vida/trabalho aqui no DAEE/CTH. 

 Veja abaixo os vídeos da entrevista, que são muitos,  mas quem puder ter um tempinho vale à pena ouvir o relato sobre as diversas fases da carreira de Sergio Cirne de Toledo e do trabalho do DAEE. 

  

http://www.youtube.com/watch?v=HDK9_IXEM9k&layer_token=e414dd363b2d2eeb  

http://www.youtube.com/watch?v=CEODvap19pQ&layer_token=bfbed6d3ee8981a3  

http://www.youtube.com/watch?v=xU_o5pMPJII&layer_token=c58f448013e2ddae  

http://www.youtube.com/watch?v=JGZyKIfVa6A&layer_token=db1a751ca6d298f9  

http://www.youtube.com/watch?v=nsbw9g6yGfU&layer_token=db62be2f48447775  

http://www.youtube.com/watch?v=oulJEYBV1o4&layer_token=3788e16c2bbadfe9  

http://www.youtube.com/watch?v=7Jncat3rs6Q&layer_token=55b9ad23c694c688

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  1. Gosto muito do Dr. Sergio, desenvolvemos alguns trabalhos onde o Dr. Sergio sempre foi uma pessoa muita dedicada e professor.
    Vou contar uma estória do Dr. Sergio. Ele sempre foi autodidata e estava estudando a lingua japonesa e conversava e escrevia em japones. Estava estudando russo (falava em ingles, espanhol, frances, japones e russo), um dia ele estava andando no corredor do CTH, muito concentrado, cabisbaixo, e falando para si, os colegas que o viram falavam que agora tentava falar com Deus.
    Outra estoria que ele conta, sabemos que ele é muito desligado a dinheiro, veículos, enfim alguns bens materias, e de vez em quando se veículo (velho) ficava sem gasolina e justificava que estava tentando acostumar o seu carro a andar sem combustível.


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