Águas Subterrâneas e os “Poetas” do DAEE – Os Precursores dos Recursos Hídricos, por: Salomão Szulman.

15/04/2010 às 19:05 | Publicado em Sem categoria | 4 Comentários
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Dr. Salomão Szulman iniciou sua carreira profissional no DAEE em 08/09/1958 como Engenheiro para atuar junto a Seção de Hidrografia, portanto é um profissional que atua na Autarquia desde sua fundação, ou há mais de 50 anos.  É casado há 43 anos com Sra. Hylda Szulman, ex-funcionária do DAEE, possui dois filhos formados, e é avô, recentemente, de uma menina. 

Na época da sua contratação, sua atividade consistia em verificar os postos pluviométricos, fluviométricos existentes e instalar outros, quando necessário, medir vazão dos rios.  Na época, a atividade primordial no DAEE compreendia a Energia Elétrica.

Por esse motivo, Dr. Salomão, com os demais técnicos responsáveis por aquele trabalho, eram conhecidos como “Poetas” pelos servidores mais simples, pois esses não reconheciam tais atividades como serviços técnicos. A ênfase do DAEE era “Energia Elétrica”, e “Águas” não tinha a importância devida.  As empresas particulares de energia elétrica, a maioria municipais, eram extremamente rudimentares; quando aumentava o consumo da energia, por exemplo, “caia” o sistema, e a população ficava prejudicada. 

Além da Hidrologia, o DAEE tinha os Polders no Vale do Paraíba – “polders são intervenções nas várzeas – o rio enche e quando a água abaixa , há barragens para reter a água; as plantações germinam na água, favorecendo, por exemplo, o caso do arroz. As colônias de férias do DAEE, utilizavam o arroz dos “polders”.

 Nessa época, Dr. Salomão cita que o DAEE não pagava o observador para  fazer a medição da chuva, por isso o pluviômetro era instalado nas proximidades de alguma entidade pública (postos de saúde, escolas públicas), a quem cabia anotar diariamente, a medição acusada no aparelho. Em uma dessas situações,  Dr. Salomão conta, que ao retornar a  uma escola para verificar o formulário da medição da chuva percebeu que certo dia constava “zero”, o que fez com que questionasse uma professora. A observadora, já havia feito a leitura naqueles  dias com certeza, pois havia chovido, os números ali presentes não se justificavam. Ocorre que a professora explicou que havia aproveitado a água da chuva depositada no aparelho (limpa) para misturar ao leite, com melhor rendimento, e fornecer às crianças na escola.

Outra situação, conta, foi que ao retornar à entidade que acolhia o pluviômetro, o mesmo estava coberto por um encerado, obviamente não constando nenhuma medição. Quando questionou o Responsável sobre isto, o mesmo lhe respondeu que, devido a chuvas, o aparelho poderia “enferrujar”…

Contanto assim, foram muitas vezes, em que se observou a inocência das pessoas, e todas as vezes que deparavam com esse tipo de situação alertava-os sobre a importância do pluviômetro e como o mesmo deveria ser utilizado, e que sua leitura diária serviria para ajudar na Agricultura, no controle das represas e para a geração de energia;  os dados colhidos seriam publicados. 

Certa vez, ainda na Hidrologia, conta Dr. Salomão que houve um período de estiagem muito forte, então, surgiu à idéia de se criar uma “chuva artificial”. Foi Sr.  Janot Pacheco, especialista, que solicitou um avião e uma série de produtos químicos para realizar o projeto; todavia, mesmo com a falta de um determinado tipo de material, resolveram provocar a chuva; o que na realidade, resultou  em uma nuvem negra no céu e não choveu. As “gotículas” que foram jogadas no céu não foram eficientes. O Dr. Milton Spencer Veras Júnior engenheiro do DAEE estava naquele avião.

 O DAEE sempre foi um órgão de grande importância perante o Governo Estadual,  comenta novamente Dr. Salomão. O DAEE foi o embrião de várias empresas de energia elétrica.

A primeira empresa que o Governo instalou foi a USELPA (Usinas Elétricas do Paranapanema), a segunda, CHERP (Central Hidrelétrica do Rio Pardo); e outras cinco foram, mais tarde, instaladas, resultando em sete empresas – “as sete irmãs”  -, cada qual sob jurisdição de uma Bacia Hidrográfica. Quando todas elas começaram a gerar energia, o Governo achou por bem uni-las; assim, originou a CESP (Centrais Elétricas de São Paulo). Dr. Salomão comenta que a CESP teve, portanto, o seu início no DAEE. A partir daí, os especialistas foram para a CESP, e então, a “AGUA” começou conquistar o seu espaço.

Ao assumir a Superintendência, o Eng. Renato Della Togna,  deu ênfase a Águas Subterrâneas em todo o Estado e Irrigação no Vale do Paraíba; contratou, inclusive, uma empresa especializada de Israel chamada TAHAL, que, como não tinha filial no Brasil, trabalhou diretamente dentro do  DAEE com os Geólogos. Nessa ocasião, Dr. Ivanir Borella Mariano coordenou esses trabalhos, no DAEE. Esse trabalho teve vulto internacional, e Países da América Latina solicitaram aos DAEE que seus técnicos fossem lá transmitir os conhecimentos que obtiveram junto a TAHAL – o que não foi possível. Mesmo assim, o DAEE teve prestigio  reconhecido; e todo o conhecimento fez com que o Estado de São Paulo tivesse um grande avanço em Águas Subterrâneas.

Enfim, todo o trabalho, com a TAHAL, foi publicado, e, por fim, quando  o Diretor da Unidade específica no DAEE (Diretoria de Planejamento Geral) era Dr. Rubem La Laina Porto,  e Dr. Salomão, um de seus  Assistentes,  a Hidrologia acabou sendo transferida para o CTH – Centro Tecnológico de Hidráulica e o fim dos trabalhos com a TAHAL se deu no início do Governo Dr. Paulo Maluf. No início do Governo Franco Montoro assumiu a Superintendência do DAEE  Dr. Waldemar Sândoli Casadei, seguindo a mesma visão do Governador,  acabou descentralizando os serviços, criando um setor de Águas Subterrâneas  junto a cada bacia. Mais tarde, esses setores todos foram coordenados por uma central na região de Araraquara. 

Através de estudos, o DAEE concluiu, a necessidade de perfurar poços profundos, para abastecimento de água em conjunto com as Prefeituras; e assim, ambas as partes eram favorecidas: o DAEE cumpria o seu objetivo coletando dados sobre os recursos hídricos subterrâneos e as Prefeituras “ganhavam” Poços. Para a realização do trabalho, um Geólogo, técnico especializado, ficava à beira do Poço sendo perfurado observando e fiscalizando a tarefa da colocação do revestimento composto pelo tubo liso, filtros e bombas pelas firmas contratadas. No entanto, hoje, esses trabalhos são de total responsabilidade das Prefeituras.

Dr. Casadei  entendia que cada local de trabalho, tinha que ter o seu Representante;  assim estes representantes escolheram um representante oficial que teve assento nas reuniões de Diretoria do DAEE. Assim, Dr. Salomão foi eleito e exerceu também a  tarefa de representante dos funcionários com a mesma dedicação. 

Na sua vida profissional participou da criação da CECREM (Cooperativa de Crédito Mútuo dos funcionários do DAEE, hoje denominada COOPEHIDRO), atuou com Dr. Paulo Augusto Romera, na busca de desenvolver um trabalho voltado ao auxílio financeiro aos servidores do DAEE. Mais tarde, atuou como Presidente da Cooperativa, e cita ter contado com a ajuda fundamental das Assistentes Sociais do DAEE para cumprir a tarefa que assumiu, numa época muito difícil em que se atravessava uma inflação altíssima e sem aumento salarial e os juros cobrados eram o mesmo da caderneta de poupança.

Junto a ADAEE(Associação dos Servidores do DAEE);atuou como Conselheiro durante algum tempo, sempre com total dedicação.                                            

Quando houve a extinção da DOP (Departamento de Obras Públicas), um grupo de seus funcionários passou a atuar, no DAEE, junto à área da DPO, sob a coordenação da Dra. Leila Gomes; Dr. Salomão Szulman transferiu-se para lá, e não poupou elogio ao trabalho técnico dela, demonstrando prazer em poder desempenhar seus trabalhos voltados, novamente, a Águas Subterrâneas, atuando especificamente na seção, cujas  atividades consistem em receber relatórios referentes à Perfuração de Poços; uma firma quer perfurar um poço, então elabora um relatório  após ter feito um estudo específico sobre as condições hidrogeológicas e a finalidade  do uso da água; dá entrada nesse documento junto a Bacia à qual pertence, a quem cabe, através de sua equipe técnica, avalizar o assunto e só então repassar à DPO, aos cuidados do Dr. Salomão e sua equipe. A eles cabem a análise final do processo, fazendo a triagem necessária dos pedidos de licença de perfuração de poços, autorizando (ou não). Realiza contatos com a Bacia, e, muitas vezes, direto com as firmas, algumas vezes para informar que os dados citados no relatório estão incorretos (medição da vazão, aqüíferos, etc.). Explica Dr. Salomão que, na perfuração, e no uso da água de um aqüífero, pode ter alteração tanto na quantidade como na qualidade da água disponível. Cita o seguinte exemplo:  certa vez, em São Paulo, um edifício situado à Rua Senador Queiroz houve um cheiro muito forte de combustível, na sua garagem. Técnicos do DAEE foram ao local e constataram que o tanque do Posto de Gasolina, situado próximo, após quarenta anos, tinha uma corrosão muito forte. Foi a partir dessa constatação feita pelo DAEE, que se passou a perceber que muitos dos Tanques de Postos de Combustíveis existentes em São Paulo deveriam ser trocados, cujo trabalho vem sendo feito. O embrião foi aquele Poço da Rua Senador Queiroz com a Av. Prestes Maia. Desde então, a CETESB, a quem compete o controle de qualidade da água, está verificando a qualidade da água dos aqüíferos de todo o Estado, em específico os situados próximos aos Postos de Combustível.

Dr. Salomão ressalta além as qualidades técnicas do Dr. Ivanir Borella Mariano e  também a do seu assessor o Dr. Elcio Linhares Silveira (falecido), Tecnólogo de vasto conhecimento em Águas Subterrâneas. As atividades que ambos exerceram no DAEE são admiradas pelos maiores especialistas no assunto. 

Finalizando com uma de suas histórias que consideramos muito importantes, principalmente sobre sua visão sobre o papel do funcionário público relatamos esta que ele nos contou com bastante destaque.

Um dos Postos Fluviométricos que Dr. Salomão implantou localizava-se no alto da Serra do Mar, na região de Capão Bonito. Foi nessa região que se deparou com uma imensa estrutura de concreto abandonada, que, cuja finalidade era uma Fábrica de  cimento de grande porte. A região tinha muito calcário. Conta Dr. Salomão que, muitos anos após, o procurou no DAEE um empresário do Cimento Nassau, que queria instalar uma filial em São Paulo, escolhendo, para isso, a cidade de Amparo. Dr. Salomão comentou com o mesmo sobre a existência da estrutura em Capão Bonito, e sugeriu que visitassem o local, mais propício ao que precisavam. O empresário, após visitar aquele local, retornou solicitando-lhe  dados sobre a vazão do Rio Paranapanema e  sobre as chuvas. Atendeu ao pedido, e emprestou um dos exemplares “boneco” que seria publicado, incluindo  aquela área. O empresário, de posse do documento, nunca mais retornou para falar sobre aquele assunto. Só recentemente, depois de passados mais ou menos vinte anos, ao prestar um atendimento a um usuário Dr. Salomão, pelo sotaque, reconheceu ser de alguém de origem de Capão Bonito. Qual não foi a sua surpresa ao confirmar isso e saber que aquela sua sugestão ao empresário foi tão bem aceita, que, hoje, a Fábrica de cimento que foi instalada em Capão Bonito representa a empresa que utiliza o maior número de empregados da cidade. Isso lhe deu um grande prazer profissional, isto é, saber que a sua idéia foi uma grande contribuição à cidade. 

Foram essas as histórias contadas pelo Dr. Salomão Szulman, algumas trazendo certa lembrança cômica, outras aproximando para o momento atual o conhecimento técnico que foi adquirido e amadurecido no DAEE, e ainda outras apontando as diversas fases de um profissional competente que se dedica ao seu trabalho com seriedade e prazer de tornar cumprida a sua missão profissional e do órgão no qual atua.

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4 Comentários »

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  1. Finalmente, testemunho eternizado na web! Fotos dos áureos tempos seriam muito bem-vindas.
    Feliz de quem pode trabalhar e aprender, diariamente, com o Dr. Salomão. Caro amigo, parabéns pela iniciativa do depoimento para as Memórias do DAEE!
    Sérgio Torres
    DAEE/DPO

  2. Trabalhei na implantação da Fabrica de Cimento Nassau em 1970 , região muito rica de calcareo e agua….lá dentro da Fabrica passa um rio e lá tem um sumidouro, isto é o rio entra por uma caverna e some.

    • obrigado por ler nosso blog e também pela valiosa informação, que pode acrescentar aos nossos leitores.

  3. Mais de dez anos, foi a última vez que encontrei Dr.Salomão, personalidade marcante, integro, um homem como poucos. Guaardo dele, com carinho, as melhores lembranças.
    Nelson D’Alessandro


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