Dica – Filme: “Horas de Verão” – sobre o valor das Lembranças.

06/10/2009 às 0:46 | Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário
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O valor das lembranças
A história de três irmãos que pouco conflitam entre si, mas muito consigo mesmos.

LIGIA HERCOWITZ
O FINO DA MOSTRA

Se algumas lembranças são valiosas, o novo filme do diretor francês Olivier Assayas, Horas de Verão (L’Heure d’Été, França), é marcante e faz jus à discussão de valores inseridos nele. A história gira em torno de uma família que, como muitas outras, se separa fisicamente devido aos novos rumos que os integrantes dela tomam. A mãe Hélène Berthier (Edith Scob), mora em uma belíssima casa que possui obras raras, como móveis e quadros feitos por artistas consagrados. Seu dono anterior, Paul Berthier, era tio de Hélène, portanto tio-avô dos três irmãos, filhos dela. A maior preocupação da mãe é com o “peso” da herança que deixará à seus filhos e netos depois da sua morte, que acaba acontecendo.

O filme retrata a decisão dos três irmãos, entrando em um consenso sobre o que fazer com a herança e sobre o que é conveniente ou não para cada um. Frédéric (Charles Berling), o único dos filhos que continua morando na França, é totalmente a favor da manutenção da casa e também dos objetos que estão nela, com a idéia de que futuramente seus filhos usufruirão daquele lugar. Jérémie (Jérémie Renier), o segundo irmão, se coloca, um pouco constrangido, a favor da venda devido ao fato de que, como já não mora mais na França e que poucas vezes voltaria à Europa, não tiraria proveito da casa como tiraria do dinheiro. Já Adrienne (Juliette Binoche) acata a decisão do irmão de vender os pertences da família, resolvendo a questão. Assim mesmo, sem nenhum conflito e sem nenhum drama, a história consegue revelar aspectos importantes do comportamento humano.

Questões importantes e muito delicadas são discutidas no filme, mas dois temas se destacam: o valor das coisas para cada um e a ambiguidade dentro de todos nós. O próprio filme provoca sensações e lembranças particulares em cada um. E é exatamente isso que o diretor passa: uma relatividade de valores. O que para a família é tão importante e simbólico, para o museu ou para as pessoas que o visitam, aquilo pode ser só uma mesa ou só um vaso. Porém inseridos na casa de onde vieram eram muito mais do que isso. Além disso, Horas de Verão discute como algo que é tão simples adquire um valor tão grande por ter sido feito por tal artista e, ao mesmo tempo, pode ser apenas um objeto que remete à uma saudade ou uma lembrança, para quem não têm conhecimento exato de quem o fez.

Além disso, o filme aborda a questão da dualidade pessoal de cada um dos personagens. O velho se contrasta com o novo. Frédéric, que é economista, é ironicamente a favor de manter a casa e os objetos, preso a um passado, quase que sozinho. Ao mesmo tempo, fuma maconha (segundo a filha) e toma cerveja com o filho no meio da tarde. Adrienne, a artista (e supostamente a “rebelde” da família) que mora em NY, pega para ela apenas alguns poucos utensílios da casa e é a favor de vender até os cadernos de desenhos do tio-avô, uma relíquia que pertence a família e que, a pedidos da mãe, não deveriam ser separados. Assim, os personagens se contradizem, brigando com os dois lados de sua personalidade, que sempre existem.

O filme conta com muita delicadeza esses conflitos e não deixa para o público a interpretação de muitas metáforas e “entrelinhas”. Com cenas absolutamente necessárias e esclarecedoras, ele não deixa nenhuma informação ao léu. O final quebra o filme e mostra, com uma sutileza bonita, o contraste do novo e do antigo, e como as coisas hoje em dia se renovam muito rápido, deixando com que recordações passem rápido pela mente. Talvez isso seja bom, talvez seja ruim. O fato que é as lembranças sempre estão lá, com o valor que cada um atribui a elas.

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