Reflexões sobre dois períodos da vida: o ingresso no mercado de trabalho e o que antecede a aposentadoria; por Edith Mota.

10/05/2010 às 14:25 | Publicado em Aposentadoria | Deixe um comentário
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No sentido de reforçar aos aspectos relevantes sobre a difícil entrada no mundo da aposentadoria,  oportuno fazer uma síntese e trazer a tona reflexões da Gerontóloga Social (já falecida) Edith Mota (1981), no seu texto intitulado: “Reflexos da Aposentadoria sobre a Questão do Idoso”. Neste texto de forma muito simples e didática, a autora a partir do cotidiano, demonstra como é tratado e valorizado o individuo que ingressa no mercado de trabalho e em contradição àquele que está em vias de se aposentar. 

Os aspectos antagônicos, os valores e angústias são muito bem demarcadas por ela, serve para nossa reflexão sobre a importancia do tema, bem como a necessidade de se preparar para esta etapa da vida. 

 Para que os reflexos da aposentadoria sejam apreendidos, importante comparar dois períodos da vida: o ingresso no mercado de trabalho e o que antecede a aposentadoria. 

Para os jovens que desejam ingressar no mercado de trabalho, a perspectiva do primeiro emprego significa um período de improdutividade e dependência. O que a sociedade (pela voz da família, escola, igreja) espera das crianças é que elas se preparem para num futuro próximo de se tornem capazes de prover a própria subsistência. Os gastos com a educação dos filhos são vistos como investimentos. Por outro lado os jovens, se submetem à dependência, como um estágio necessário para o alcance da independência, da produtividade e prepararem-se para o trabalho. 

Sob muitos aspectos a perspectiva da aposentadoria tem um significado inverso, e não raras vezes é percebida, como retorno à situação de improdutividade e dependência. Outros porém anseiam pela liberação de uma situação vivida como indesejável ou pouco compensadora, ou ainda oportunidade de experiências incompatíveis com as exigências de trabalho. 

Para o jovem o ingresso no mercado de trabalho é percebido mais como o início de uma nova etapa da vida.  O jovem sente-se ajudado, pelos que o cercam a fazer parte da situação na qual desejam ingressar. Os pré-aposentados sentem-se, por vezes, pressionados pelos que os rodeiam a abandonar uma situação na qual, com freqüência prefeririam permanecer por mais algum tempo. Os jovens vêem o ingresso no trabalho como um passo à frente, em direção a novas possibilidades, os pré-aposentados talvez se sintam caminhando na direção oposta. 

O trabalho é visto com ascensão para os jovens, à aposentadoria pode ser vista como um declínio. 

O trabalho promete segurança, a aposentadoria pode ameaçar com incerteza. O trabalho pode ser idealizado como o primeiro passo para subir na vida, a aposentadoria pode ser temida como o primeiro degrau de descida. 

Agora um esforço, será feito no sentido de refletir sobre o que estas pessoas esperam da nova situação na qual ingressam. 

Os dois grupos têm perspectivas de vida. Talvez a diferença resida no fato de que o primeiro acalentar maior número de esperanças de que o segundo. 

Quanto ao aspecto financeiro: no começo da carreira, o jovem acalenta a esperança da prosperidade. Sonha progredir no emprego, merecer promoções ou encontrar colocação melhor, vir um dia a perceber salário compensador, fazer bons negócios, tornar-se financeiramente independente. O aposentado sabe, que o provento de sua aposentadoria será fatalmente inferior aos salários percebidos nos anos de atividade, que os reajustes feitos em decorrência da espiral inflacionária serão insuficientes para compensar a desvalorização do dinheiro, sabe que não terá novas promoções e sobretudo, sabe que não lhe resta tempo para fazer um pecúlio, tendo que se conformar com o valor de sua aposentadoria. Finalmente, ele não ignora que as despesas com a própria saúde tenderão a crescer, embora a receita tenda a diminuir.          

No que diz respeito ao status funcional, o jovem tem perspectivas de ascensão, os que se aposentam tem a certeza da perda objetiva do seu status funcional. 

Os que iniciam uma carreira profissional, ingressam em mais um grupo social, diferente dos quais conviviam anteriormente. Esta situação carrega no seu bojo outras perspectivas de vida, novas relações, novos amigos,novas oportunidades de convivência social. Os que se aposentam afastam-se dos colegas de trabalho e, provavelmente temem perder os amigos que lá fizeram. Sabem também que as oportunidades de ingresso em outros grupos iguais irão tornando-se cada vez mais difíceis e escassas. Assim no início da atividade profissional a perspectiva é de ampliação do universo social, ao término deste período mais provável talvez seja uma brusca redução do universo social. 

Intimamente ligada aos aspectos já mencionados, está à questão do casamento. É a partir da atividade remunerada que a maioria dos jovens espera constituir sua própria família. Mas as perspectivas dos jovens não se esgotam com a possibilidade de manutenção de um novo lar; eles querem uma casa X, num bairro Y e desejam certo número de filhos educados dentro de determinados padrões. Quanto às perspectivas dos que se aposentam com relação à família: para ele a família que foi constituída muitos anos antes, ou não mais o será. Os casados poderão pensar em ver nascer os netos e a eles dispensando cuidados e atenção, embora saibam que o relacionamento com os netos será forçosamente diferente daquele que mantiveram com os filhos. Os que não casaram, experimentam maiores receios do que esperanças ante a possibilidade de maior número de horas numa casa vazia.   

Em resumo, as perspectivas de vida do jovem que ingressa no mercado de trabalho, talvez sejam mais risonhas do que as antevistas pelo homem de meia idade que se prepara para dele sair. O jovem tem um longo futuro à sua frente e deseja entrar para o grupo de adultos; o futuro do aposentado é curto e ele repugna a idéia de entrar no grupo de idosos; o jovem vai ao encontro da vida; o aposentado foge da perspectiva da morte. 

A autora, após a reflexão sobre as práticas do nosso cotidiano em 1981 e, ainda presentes e expressivas em 2010, ainda assim ao final de seu artigo, pergunta: Os idosos serão, necessariamente pessoas solitárias e sem amigos? Inexistirão outras perspectivas de vida, além das oferecidas pelo trabalho remunerado? 

E responde afirmando que “não tenhamos dúvidas – o mundo é dirigido por idosos”, citando inúmeros casos de indivíduos com forte atuação na área política, do mundo de negócios, das artes, da literatura, da ciência, da religião onde a importância e contribuição dos mais vividos não pode ser desconhecida, nem menosprezada. Destaca diante dos exemplos citados, que o que existe de comum nos exemplos apresentados é o fato de que tais pessoas não se aposentaram no sentido de não abandonarem aquelas atividades nas quais se sentiam úteis e competentes. Para a autora os aposentados que realmente usufruem deste novo estágio da vida são de um lado aqueles para os quais as exigências do trabalho representavam um entrave a realidade de outras atividades percebidas por eles como de importância maior, e de outros os que encontraram na aposentadoria, novas oportunidades de vida útil e produtiva. Para os primeiros a aposentadoria representa liberação de uma situação desagradável e a possibilidade de experiências gratificantes, para os últimos a ocasião de aperfeiçoamento em atividades que merecem a preferência individual de cada um. 

Neste enfoque é nosso entendimento que os programas de preparação para aposentadoria, devem seguir esta linha mestra, no sentido de fazer com que as pessoas reflitam sobre o significado do trabalho nas suas vidas, o peso das exigências da sociedade capitalista e os papéis que está nos impõe, os desejos e aspirações que ficaram latentes e, as novas possibilidades que se abrem neste novo período de vida.  A experiência acumulada e a certeza de uma renda tida como certa, possibilita a revisão e elaboração de novos projetos, tendo como parâmetro, os inúmeros protagonistas (aposentados e idosos) que se destacam no cenário contemporâneo, além daqueles que simplesmente resolvem ficar em casa (ou viajando), junto às suas famílias, sem nenhum remorso e com muita qualidade de vida.    

Texto de   Motta, Edith – “Reflexos da aposentadoria sobre a questão social do idoso”. Revista Terceira Idade, Ano X, Nº. 13 – 1998, comentários apresentado no TCC do Curso de Gerontologia Social do Instituto Sedes Sapientiae, em 2008.

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